Visite a cidade de origem de O Senhor dos Anéis

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 Oxford, Inglaterra

‘Numa toca no chão
vivia um hobbit’

    Era um rabisco na folha branca de uma prova da escola. Em um dia de sol, sentado ao lado da janela de sua sala, no início de 1930, um professor de Oxford de rosto fino deixou sua mente sair da correção de papéis e entrar no mundo que se tornaria a Terra Média.
 
 

    "O Hobbit" e "O Senhor dos anéis" estão entre os livros mais lidos e queridos do século XX. Estima-se que mais de 100 milhões de pessoas leram os contos épicos, os quais foram traduzidos em 40 línguas.

    J.R.R. Tolkien escreveu sua mitologia da Terra Média em Oxford, Inglaterra, onde viveu a maior parte de sua vida adulta. O senhor Tolkien não era o único criador de mitos de Oxford; Geoffrey of Monmouth compilou as lendas de Arthur durante o século XII.

    Enquanto a Oxford de Geoffrey é principalmente enterrada embaixo de capelas antigas, colégios, e residências, a Oxford de Tolkien continua quase como quando "O Hobbit" foi criado.

    Não há base melhor para um tour na Oxford de Tolkien que o pub The Eagle and Child, algumas quadras ao norte do centro da cidade.

    Na placa de madeira do pub, há uma águia voando, segurando um bebe embalado. (Os heróis de Tolkien são resgatados por águias gigantes em vários momentos cruciais de suas histórias).

    O pub The Eagle and Child foi fundado em 1650, e nos anos 40 se tornou a fonte de inspiração favorita de um grupo de escritores que se auto intitulava "The Inklings". O grupo incluía Tolkien, C.S. Lewis e seus amigos.

    Fazer um tour de Tolkien sem falar sobre Tolkien não é divertido, então eu organizei para encontrar dois entusiastas locais: Ian Collier, assessor de imprensa da Oxford Tolkien Society, e Russ Shannon, presidente da Taruithorn Society, um grupo Tolkien para estudantes de Oxford. (Embora eu esperasse que o presidente da Taruithorn Society tivesse um genuíno sotaque britânico e formação no "Verdadeiro Inglês Antigo", Shannon faz doutorado em engenharia em New Jersey.)

    "Taruithorn foi o nome élfico que Tolkien deu para Oxford", explica Mr. Collier, que trabalha para uma empresa de publicidade. "Significa ‘lugar das altas águias.’ Você de fato se pergunta quanta influência o pub teve nisso tudo".

    Nós estávamos sentados no mesmo quarto escuro e decorado onde Tolkien leu capítulos de "O Hobbit" e "Senhor dos Anéis" em voz alta para seus companheiros Inklings.

    O local é o melhor no pub. Mas também é tão pequeno que se a Sociedade do Anel estivesse reunida aqui, Aragorn e Gandalf seriam obrigados a ficar no corredor.

    The Eagle and Child é um local de encontro regular para os membros da Tolkien e Taruithorn Society. "A Tolkien Society foi criada como uma sociedade séria de literatura", diz Collier. "Claro que, como Tolkien, nós preferimos ter uma discussão literária séria [em um pub]".

    O local pequeno da Inklings teve benefícios inesperados para jovens estudantes de Oxford. "Você não acreditaria em quantos casais ficaram juntos através da Tolkien Society e Taruithorn", diz Shannon. "É quase um clube de encontro".

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Exeter College e Old Ashmolean

    Tolkien veio para Oxford ainda um jovem estudante em 1911. Seus quartos imitando o estilo gótico na Exeter College tinham vista desde a rua Turl até a Igreja All Saints. Julgando por desenhos que Tolkien fez na época em que viveu lá, a paisagem é muito parecida hoje com o que era nos seus anos escolares.

    Na esquina da Exeter fica o edifício do século XVII Old Ashmolean. O exterior imponente é protegido por uma fileira de bustos parecidos com Sócrates se tivesse tomado esteróides.

    Depois de se graduar na Exeter e servir na Primeira Guerra Mundial – antes de escrever os livros que o tornaram famoso – Tolkien trabalhou atrás da péssima fachada do Ashmolean, compondo definições para o New English Dictionary.

    Mais de 50 anos depois, os organizadores do dicionário pediram a ajuda de Tolkien para a definição de uma nova palavra, uma que seus textos haviam adicionado à linguagem. A palavra era "hobbit".

 

Os portões de Mordor

   Após um curto período na Leeds University, Tolkien se tornou um professor em Oxford, ensinando Anglo-Saxão e Inglês nos colégios Pembroke e Merton por 35 anos.

    Sete das casas antigas de Tolkien podem ser vistas ao redor de Oxford, porém nenhuma delas é aberta ao público. Tolkien odiava as casas limitadas, totalmente básicas e alinhadas da estrada Manor, onde ele datilografou duas vezes "O Senhor dos Anéis" completo, enquanto estava sentado na cama no sotão.

    Tolkien guardou sua pior condenação pelo barulho e odor de tráfico próximo de seu chalé na rua Holywell, chamando-a de "Mordor em nossos arredores". Mas Tolkien teve boas recordações de seus dias na estrada Northmoor, onde viveu em duas casas em um total de 23 anos. Foi no número 20 da estrada Northmoor que ele sonhou pela primeira vez com hobbits.

    A estrada de Northmoor fica no quieto subúrbio do norte central de Oxford. Eu andei na Northmoor em uma manhã de sol de março, tentando não parecer um turista.

    O próprio Tolkien não teve problemas em escolher entre se mudar para o subúrbio ou Sauron. "Eu trouxe Frodo perto dos portões de Mordor. A tarde cortando grama," Tolkien escreveu casualmente para seu filho.

    Um dos locais favoritos de escape de Tolkien era o Jardim Botânico de Oxford, o mais antigo no Reino Unido. O jardim é do lado oposto ao Magdalen College (pronunciado, inexplicável para os Americanos, como "MAWD-lin"), onde os Inklings freqüentemente se encontravam na sala de C.S. Lewis.

    A árvore favorita de Tolkien ainda está lá, um pinheiro australiano enorme com dois séculos. Enquando os ramos da maioria das árv
ores crescem para fora em várias direções, esta árvore parece um gigante armado, todos os seus finos troncos cresceram direcionados para o céu em súplica. É fácil imaginar esta árvore inspirando os Ents de Tolkien, as andantes e falantes árvores da Terra Média.

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Fama, fãs, e o filme.

    Tolkien se tornou bastante famoso, para sua satisfação e desapontamento. "Ser uma figura cult na própria vida, temo que não seja de todo prazeroso", ele escreveu. "Mas mesmo o nariz de um ídolo muito modesto… não pode permanecer completamente intocado pelo doce cheiro do incenso".

    Tolkien podia manter um senso de humor, mesmo quando contemplado com telefonema dos fãs. Em resposta à sugestão de um editor, ele escreveu: "Retirar o numero do catálogo parece melhor que o método adotado pelo [irmão do C.S. Lewis], que foi atender e dizer ‘Unidade de Depósito de Esgoto de Oxford’… até eles desistirem".

    No The Eagle and Child, a conversa se voltou naturalmente para o ambicioso filme de "O Senhor dos Anéis", que estréia em 19 de dezembro (Nota: este texto foi originalmente publicado em novembro de 2001) . "As pessoas estão tanto esperando pelo filme, quanto o temendo", diz Shannon.

  Collier explica que a Tolkien Society é relutante ao comentar sobre o novo filme. "Nosso presidente é J.R.R. Tolkien. Ele era presidente quando estava vivo, e depois que ele morreu, sua família concordou que ele poderia continuar sendo. Então, nossa opinião oficial é ‘esperar para ver’. Muito sem sal. Muito politicamente correto. Mas nos poupa muita confusão.

    Pessoalmente, eu sou bastante dedicado a esta idéia [de não expressar uma opinião]".

    O próprio Tolkien ouviu a uma adaptação de "O Senhor dos Anéis" pela emissora de rádio BBC.

   Quando um diretor Americano questionou sobre fazer uma versão animada, Tolkien foi muito prático: "Eu deveria receber bem a idéia de um filme de animação, com todo o risco de vulgarização; e isso completamente aparte do brilho do dinheiro, próximo da aposentadoria esta não é uma possibilidade desagradável. Eu penso que devo achar a vulgarização menos dolorosa do que a infantilização alcançada pela BBC."

  Uma versão britânica posterior não foi muito melhor. "Gollum é um sapo, e todos os elfos parecem ter usado drogas", diz Collier, rindo.

   O que Tolkien pensaria do filme novo e milionário? Sem dúvida, o filme espetacular e cheio de efeitos especiais iria impressionar. Mas, no fim, Tolkien provavelmente preferiria sua visão particular da Terra Média.

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Luthien e Beren

    O cemitério Wolvercote fica há muitas milhas da velha casa de Tolkien, na estrada de Northmoor. Alguns marcadores de pedra apontam o caminho para o túmulo de Tolkien e sua esposa, Edith.

    É um retângulo simples e rude de granito. Delicadas orquídeas foram plantadas em cima do túmulo. Visitantes deixaram pequenos pingentes em cima de um dos cantos do túmulo: uma cruz Celta, uma fada, um arqueiro de joelhos, e um crucifixo.

    O romance é raramente notável nos trabalhos de Tolkien. Contudo, abaixo do nome de Edith está gravado "Luthien", e "Beren" abaixo de Tolkien.

    A história de amor entre Luthien, uma elfa imortal, e Beren, um homem mortal, está no coração de "O Silmarillion", uma coleção das lendas da Terra Média.

    Tolkien morreu aos 81 anos, menos de dois anos depois de sua esposa.

    Ele explicou para seu filho após a morte de Edith em 1971: "Eu espero que nenhum dos meus filhos sinta que o uso deste nome é um artefato sentimental… mas ela era a fonte da história que na época se tornou a parte principal do Silmarillion… para sempre (especialmente quando sozinho) nós continuaremos a nos encontrar na clareira da floresta, e fomos de mãos dadas muitas vezes para escapar da sombra iminente da morte, antes de nossa última separação".

 

Fazendo o tour pela Oxford de Tolkien

    Oxford fica à uma hora de trem da estação Paddington, em Londres. O Centro de Turismo de Oxford distribui um guia chamado "Tolkien in Oxford", escrito por Ian Collier da Tolkien Society. Você também pode encontrar mais informações através do site do Centro, www.oxfordcity.co.uk/guide/infocent.html.

   Um guia detalhado para sites de Tolkien em Oxford, completo com fotos e mapa, está disponível em: http://users.ox.ac.uk/~tolksoc/TolkiensOxford.

    A livraria Blackwell (telefone 01865-333606) fica há poucas quadras do Centro de Turismo, na rua Broad do outro lado da Old Ashmolean. Uma vez por semana (geralmente às quartas-feiras), eles oferecem um tour literário a la "Inklings".

   A Blackwell também vende mapas detalhados de Oxford que são essenciais para encontrar lugares Tolkien nas fronteiras da cidade, como a estrada Northmooor e o Cemitério Wolvercote. Quando visitar as antigas casas de Tolkien, lembrem de respeitar a privacidade dos moradores atuais.

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