Os Balrogs nunca tiveram asas!!!

Um dos temas mais debatidos sobre a obra de Tolkien é a questão das asas de Balrog. Enquanto uns afirmam que os Balrogs tinham asas, outros dizem que tais bestas não eram aladas. O seguinte texto, publicado originalmente no site Elfenomeno, bota mais lenha na fogueira. Boa leitura.
 
 

10 de janeiro de 2006, às 23:01 – Paola Castagno e Jésus Pedrazo

A multidão de Orcs se abriu como se eles mesmos estivessem com medo. Uma figura avançou para a fissura, não maior do que um homem, mas assim o terror parecia precedê-la. Eles podiam ver o fogo intenso de seus olhos amarelos de longe; tinha uma (?língua) vermelha.
 
Pelo ar saltou sobre a fissura flamenjante. As chamas subiram para saudá-lo e se retorceram a seu redor. Seu cabelo esvoaçante parecia pegar fogo, e a espada que empunhava transformou-se em chamas. Em sua outra mão, segurava um chicote de muitas correias.

– Ai, ai – lamentou Legolas – [Os Balrogs] Um Balrog chegou.

– Um Balrog – disse Gandalf – Que má sorte… e meu poder está quase esgotado.

A figura flamejante atravessou correndo o chão. Os Orcs gritaram e atiraram muitas flechas.

–    Pela Ponte – gritou Gandalf – Fujam! Fujam!

–    Este é um inimigo além de qualquer um de vocês. Eu defenderei a Ponte. Vão!

Quando alcançaram a porta se viraram, a despeito de sua ordem.

As figuras de Trolls atravessaram o fogo carregando Orcs. O Balrog correu em direção à Ponte. Legolas (?ergueu) seu arco, e (uma) flecha perfurou seu ombro. O arco caiu inútil. Gandalf permaneceu no meio da ponte. Em sua mão, Glamdring brilhava. E em sua mão esquerda, ele segurava seu cajado. O Balrog avançou e ficou olhando.

Subitamente, com um jorro de chamas, saltou na ponte, mas Gandalf permaneceu firme. ‘Você não pode passar’ ele disse. – Volte (riscado, provavelmente tão logo foi escrito: para as profundezas flamenjantes. É proibido para qualquer Balrog aparecer sob o céu desde que Fionwë, filho de Manwë destruiu Thangorodrim). Eu sou o mestre do Fogo Branco. A chama vermelha não pode passar por aqui.

A criatura não respondeu, mas endireitou-se até alcançar uma grande altura, e curvando-se sobre o mago, avançou e o golpeou. Uma cortina de chama branca brotou diante dele (?como um escudo) e o Balrog caiu para trás, sua espada em pedaços derretidos que voaram, mas o cajado de Gandalf quebrou-se e caiu de sua mão. Com um chiado arfante, o Balrog se aprumou de um salto; parecia [?meio cego], mas continuou e alcançou o mago. Glamdring lhe decepou a mão direita vazia, mas nesse instante, quando [? dava o golpe], o Balrog [? atacou com] seu chicote. As cordas o açoitaram e se enroscaram em torno dos joelhos do mago, que cambaleou.

Este é um dos primeiros rascunhos do capítulo “A Ponte de Khazad-Dûm” de ‘O Senhor dos Anéis’ e que podemos encontrar em ‘The Treason of Isengard’. Nos quatro livros que compõem a História de ‘O Senhor dos Anéis’ (O Retorno da Sombra, A Traição de Isengard, A Guerra do Anel e o Fim da Terceira Era) podemos encontrar os textos de J. R. R. Tolkien em diferentes períodos da evolução de ‘O Senhor dos Anéis’, compilados e editados por seu filho Christopher Tolkien. A respeito do tema que agora nos concerne, são vários os lugares onde se descreve com mais ou menos clareza a forma física do Balrog de Moria, como por exemplo, os fragmentos a seguir detalham:

O rascunho original do capítulo acaba aqui e não reconta a chegada da Companhia ao Vale do Riacho Escuro. Há uma nota a lápis escrita no manuscrito ao lado da descrição do Balrog: ‘Alterar a descrição do Balrog. Parecia ter a forma de um homem, mas sua forma não podia ser claramente discernida. Dava a impressão de ser maior do que parecia.’ Depois as palavras ‘Pelo ar saltou por sobre a fenda flamenjante’ meu pai adicionou ‘e uma grande sombra parecia escurecer a luz.’

Aqui Gandalf descreve o Balrog, seu fogo extinto, desta maneira: ‘ele era uma coisa de lama, forte como uma serpente estranguladora, lisa como gelo, flexível como uma correia, inquebrável como aço.’

Mas claro, muitos dirão que estes não são mais do que trechos descartados pelo autor, e embora não devamos esquecer que a partir deles compôs a versão final, não temos mais nada a fazer a não ser recorrer ao cânone, à obra finalmente publicada, na qual, como sabemos, se diz o seguinte:

A multidão de orcs se abriu, e se amontoou do lado, como se eles próprios estivessem com medo. Alguma coisa vinha atrás. Não se podia ver o que fosse: era como uma grande sombra, no meio da qual havia uma forma escura, talvez humanóide, mas maior; poder e terror pareciam estar nela e ao seu redor.
   
A figura veio para a extremidade do fogo e a luz se apagou, como se uma nuvem tivesse coberto tudo. Então, com um movimento rápido, pulou por sobre a fissura. As chamas bramiram para saudá-la, e se ergueram à sua volta; uma nuvem negra rodopiou subindo no ar. A cabeleira esvoaçante se incendiou, fulgurando. Na mão direita carregava uma espada como uma língua de fogo cortante; na mão esquerda trazia um chicote de muitas correias.

– Ai! ai! – gemeu Legolas. – Um balrog! Um balrog vem vindo!

Gimli  olhou com os olhos esbugalhados. – A Ruína de Durin – gritou ele, deixando cair o machado e cobrindo o rosto.

– Um balrog! – murmurou Gandalf. – Agora eu entendo. – Perdeu o equilíbrio e se apoiou no cajado. – Que má sorte! E eu já estou exausto!

A figura escura, envolvida em fogo, corria em direção a eles. Os orcs gritavam e avançavam para a passarela de pedra. Então Boromir levantou sua corneta e a tocou. Forte o desafio soou e retumbou, como o grito de muitas gargantas sob o teto cavernoso. Por um momento os orcs estremeceram e a figura de fogo parou. Então os ecos se extinguiram de repente como uma chama apagada por um vendaval, e o inimigo avançou outra vez.

– Para a ponte! – gritou Gandalf, recobrando as forças. – Fujam! Este é um inimigo além das forças de qualquer um de vocês. Preciso proteger o caminho estreito. Fujam! – Aragom e Boromir não obedeceram ao comando, e ainda ficaram onde estavam, lado a lado, atrás de Gandalf na extremidade oposta da ponte. Os outros pararam bem na passagem na ponta do salão e se viraram, incapazes de deixar seu líder sozinho, enfrentando o inimigo.

O balrog alcançou a ponte. Gandalf parou no meio do arco, apoiando-se no cajado com a mão esquerda, mas na outra mão brilhava Glamdring, fria e branca. O inimigo parou outra vez, enfrentando-o, e a sombra à sua volta se espalhou como duas grandes asas. Levantou o chicote, e as correias zuniram e estalaram. Saía fogo de suas narinas. Mas Gandalf ficou firme.

– Você não pode passar – disse ele. Os orcs estavam quietos, e fez-se um silêncio mortal. – Sou um servidor do Fogo Secreto, que controla a chama de Anor. Você não pode passar. O fogo negro não vai lhe ajudar em nada, chama de Udún. Volte para a Sombra! Não pode passar.

O balrog não fez sinal de resposta. O fogo nele pareceu se extinguir, mas a escuridão aumentou. Avançou devagar para a ponte, e de repente saltou a uma enorme altura, e suas asas se abriram de parede a parede, mas ainda se podia ver Gandalf, brilhando na escuridão; parecia pequeno, e totalmente sozinho: uma figura cinzenta e curvada, como uma árvore encolhida perante o início de uma tempestade.

Saindo da sombra, uma espada vermelha surgiu, em chamas.

Glamdring emanou um brilho branco em resposta.

Houve um estrondo e um golpe de fogo branco. O balrog caiu para trás e sua espada voou, partindo-se em muitos pedaços que se derreteram. O mago se desequilibrou na ponte, deu um passo para trás e mais uma vez ficou parado.

– Você não pode passar! – disse ele.

Num salto, o balrog avançou para cima da ponte. O chicote zunia e chiava.

– Ele não pode ficar sozinho! – gritou Aragorn de repente, correndo de volta ao longo da ponte. – Elendil! – gritou ele. – Estou com você, Gandalf!.

– Gondor! – gritou Boromir, correndo atrás dele.

Nesse momento, Gandalf levantou o cajado e, gritando bem alto, golpeou a ponte. O cajado se partiu e caiu de sua mão. Um lençol de chamas brancas se ergueu. A ponte estalou. Bem aos pés do balrog se quebrou, e a pedra sobre a qual estava caiu dentro do abismo, enquanto o restante permaneceu, oscilando, como uma língua de pedra estendida no vazio.

Com um grito horrendo, o balrog caiu para frente, e sua sombra mergulhou na escuridão, desaparecendo. Mas no momento em que caía, brandiu o chicote e as correias bateram e se enrolaram em volta dos joelhos do mago, arrastando-o para a borda. Ele perdeu o equilíbrio e caiu, agarrando-se em vão à pedra, e escorregou para dentro do abismo.

No básico, é evidente que a história se manteve, mas como sabemos todos nós, os amantes da obra, é neste parágrafo, neste capítulo, onde se encontram as duas ‘célebres’ frases que originaram a perpétua e (não resolvida) discussão sobre se o Balrog tinha ou não asas.

Em B é dito somente que o Balrog ‘deteve-se encarando-o’: em C ‘o Balrog deteve-se encarando-o e a sombra que o envolvia se abria dos lados como duas grandes asas”. Imediatamente depois, onde em CA o Balrog “se ergueu para uma grande altura, e suas asas se estenderam de parede a parede”, nem B nem C tem as palavras ‘para uma grande altura’ nem fala de ‘asas’.

Portanto, foi no chamado ‘manuscrito C’ que J.R.R.Tolkien insere a primeira citação, a que usamos como argumento de que o Balrog não tinha asas. Mas quando e por que aparece a segunda frase? Como o próprio Christopher Tolkien disse, nos manuscritos de que dispõe, não se fala de asas. O balrog é descrito como rodeado de escuridão, que em um dado momento, toma a forma de asas.  Certamente, é ao menos estranho que nosso querido professor, sendo tão detalhista como era e tão primoroso no uso da linguagem não deixe claro se um ser pertencente à sua criação mitológica, e que, portanto, nos era desconhecido, já que acabamos de ler sobre ele pela primeira vez em sua obra, tinha ou não asas, elemento definidor e fundamental na descrição do inimigo de Gandalf.

Bem, pois na recente publicação de The Lord of the Rings: A Reader´s Companion, de Wayne G. Hammond e Christina Scull, publicado no Reino Unido no último mês de novembro de 2005, e tal como anunciamos nas notícias deste página, se destaca neste aspecto:

330 (I:344). E a sombra que o envolvia se abriu dos lados como duas grandes asas –  esta é a frase que aparece dois parágrafos abaixo, ‘prontamente se ergueu até alcançar uma grande altura, estendendo as asas de parede a parede’, tenham levado a muitas discussões entre os leitores em relação a se os Balrogs tinham asas. Como duas grandes asas a princípio descreve a sombra que rodeia o Balrog, e a segunda parece seguir aplicando-se a sombra: à medida que o Balorg aumenta sua altura, assim sua sombra se estende ao comprido. Outra evidência citada para as asas, quando se diz que os Balrogs ‘passaram com uma velocidade alada por Hithlum” (El Anillo de Morgoth, P. 340), pode ser interpretada geralmente como figurada. (The Lord of the Rings: A reader´s companion, "The bridge of Khazad-dûm", p.296)

 [Na versão original em inglês se diz "and they passed with winged speed over Hithlum"]

As pessoas que defendem o Balrog com asas argumentam, também, que o importante não é o detalhe da velocidade alada, mas o final desta frase: “chegaram a Lammoth como uma tempestade de fogo”, argumentando que uma tempestade vem do céu, pelo qual os Balrogs deviam chegar voando. Não obstante, nos encontramos diante de algo que é, novamente, completamente circunstancial e que, da mesma forma, pode interpretar-se de forma figurada.

Além do mais, isto traz uma nova incógnita ao debate: os Balrogs podiam voar?

Mas além disso, conforme pudemos ler em um recente ensaio de Michael Martinez publicado no MERP, quando se perguntou por escrito a Christopher Tolkien sobre as asas, respondeu o seguinte:

Pela regra geral, não me era enviado o material tardio de Markette (sic) – os textos datilografados por meu pai – e em muitos casos nem sequer os vi… Assim, nunca li o texto datilografado final (o seguinte à cópia limpa do manuscrito C (La Traición de Isengard, páginas 203-33) da Ponte de Khazad-dum (Markette n.º 3/3/25). Presumo que foi aí onde entrou a menção das asas do Balrog que se estendiam de parede a parede. Poderia pedir a Chuck Elston, o muito solícito arquivista de Markette, que procure o 3/3/25. Mas então provavelmente não lhe seria muito útil, sem nenhum conhecimento preciso de quando o datilografou meu pai: mas em uma carta de 28 de fevereiro de 1949, ele escreveu: “Estou achando enorme o trabalho de datilografar uma boa cópia de ‘O Senhor dos Anéis’”. Eu, pessoalmente, nunca achei que a segunda menção das asas do Balorg tenha nenhum significado diferente da primeira.

Bem, e o que concluímos com este novo texto? No momento, duas coisas:

– Por um lado, nos confirma o momento no qual foi introduzida a segunda citação das asas. Em todo caso, a inclusão desta frase é posterior à da semelhante “como duas grandes asas”.

– E, por outro lado, está claro que para Christopher Tolkien os Balrogs não tinham asas, nem as tiveram desde um primeiro momento, porque a julgar por suas palavras, seu pensamento se encaminha claramente ao anteriormente citado, que a metáfora “estendendo as asas de parede a parede” não é mais do que uma ênfase do símile “como duas grandes asas”. E dentro do mundo de J.R.R. Tolkien, está acima de qualquer dúvida que a pessoa com mais autoridade no tema é seu filho, Christopher. Além do mais, não podemos deixar de pensar que se alguém teve oportunidade de perguntar ao próprio J.R.R. Tolkien e de saber como eram os Balrogs e se tinham ou não asas, este é Christopher Tolkien.

Para os que escreveram estas linhas com todos estes fundamentos, está mais do que claro que temos um novo enigma solucionado em nossa amada Terra-Média. Agora somente nos resta esperar que logo apareça algum texto que nos esclareça de uma vez quem ou o que é Tom Bombadil.

 

* Nota: a carta a que aqui se refere C. Tolkien é a que aparece em “As Cartas de J.R.R. Tolkien”, numerada com o n.º 119, e dirigida a Allen & Unwin em 28 de fevereiro de 1949.

Não tenho tempo para voltar a datilografar (Farmer Giles), e não creio que seja realmente necessário. Estou achando enorme o trabalho de datilografar uma boa cópia de ‘O Senhor dos Anéis’, e a alternativa de obtê-la datilografada por um profissional tem um custo proibitivo.
(J.R.R. Tolkien: Cartas, carta nº 119)