A saga dos "hobbits" da ilha de Flores continua!

A saga dos “hobbits” da Indonésia, os mini-hominídeos de 1,1 m que andam deixando os antropólogos de queixo caído, acaba de ganhar oito novos personagens. Parece que os membros recém-chegados do elenco confirmam que se trata mesmo de uma espécie de humano primitivo, o Homo floresiensis, e não de pessoas com doenças genéticas, como querem alguns pesquisadores.

 

 

Os novos espécimes _na verdade uma coleção de cacos, que vão da mandíbula aos ossos das mãos e dos pés_ foram desenterrados e descritos pela mesma equipe australiano-indonésia que apresentou o primeiro membro da espécie ao mundo, em outubro do ano passado.

Para Mike Morwood, da Universidade da Nova Inglaterra em Armidale (Austrália), e seus colegas, os achados provam que as criaturas habitaram a ilha de Flores por dezenas de milhares de anos, fabricando instrumentos de pedra, fazendo fogo e caçando um parente anão dos elefantes, o Stegodon (como se vê, espécies encolhidas é o que não falta em Flores). Foi o tamanho diminuto que deu ao H. floresiensis o apelido de “hobbit”, por analogia com os personagens de mesmo nome na saga “O Senhor dos Anéis”.

O estudo sai na edição de amanhã da revista científica britânica “Nature” (www.nature.com) e tem como um de seus principais astros o queixo de um dos hominídeos-anões _ou melhor, a falta dele (veja quadro nesta página).
A mandíbula, junto com todos os outros restos da espécie, havia sido emprestada pelo antropólogo indonésio Teuku Jacob, da Universidade Gadjah Mada em Yogyakarta. Jacob diz acreditar que os fósseis sofrem de microcefalia, doença genética que leva ao encolhimento do cérebro, e, segundo os australianos, acabou danificando seriamente os espécimes na tentativa de obter moldes deles. “Não tivemos chance de estudar essa segunda mandíbula em detalhe antes que ela fosse danificada”, disse Morwood à Folha. Jacob nega ter causado os danos.

Seja como for, o que sobrou do espécime mostra que os “hobbits” não tinham a protuberância óssea que forma o queixo. Trata-se de uma característica única dos humanos modernos, ausente em todos os outros hominídeos primitivos, o que, para a maioria dos cientistas, fortalece a inclusão do H. floresiensis nessa categoria.

Vários métodos de datação (aplicados em sedimentos ou carvão da caverna de Liang Bua, onde os fósseis foram achados) indicam uma ocupação que começou por volta de 90 mil anos atrás e vai até quase o fim da Era do Gelo, há 12 mil anos. Isso confirmaria o papel dos “hobbits” como os hominídeos que mais tempo sobreviveram na Terra antes que os humanos modernos triunfassem.

Apesar da natureza fragmentada dos achados, dá para estimar a presença de nove indivíduos sem medo de errar por causa da sobreposição entre os ossos (ninguém tem duas tíbias direitas, por exemplo). Embora a maioria do material venha de adultos, há pelo menos uma criança, reconhecível pelo fato de que as extremidades do osso ainda não tinham se fundido, porque ainda precisavam de espaço para crescer. Os novos achados também incluem os ossos do braço da primeira “hobbit”, até então não descritos.

“São indivíduos que compõem um conjunto internamente consistente, estendendo-se por 80 mil anos, e não há nada neles que pareça patológico”, avaliou o paleoantropólogo Greg Laden, da Universidade de Minnesota (EUA), que não esteve envolvido na pesquisa.

Já Robert Martin, antropólogo do Museu Field de Chicago para quem os indivíduos de Flores não passam de humanos modernos com microcefalia, diz que ainda não está convencido. “Em princípio, a falta de queixo não é um problema porque, em alguns tipos de microcefalia, ele também não se desenvolve”, declarou ele à Folha. Para Martin, não seria impossível que vários indivíduos da mesma família com esse problema estejam representados.
“Os descobridores dos fósseis afirmam que há uma diferença de 3.000 anos de idade entre essa nova mandíbula e a anterior. Se isso for verdade, fica difícil argumentar que a mesma patologia persistiu por tanto tempo. Contudo, não estou convencido de que seja possível datar os espécimes com essa precisão”, criticou.

Alheio às críticas, Morwood está mais preocupado com o futuro das escavações em Liang Bua. Por causa do confronto com Jacob, que é uma lenda da antropologia indonésia, os pesquisadores resolveram “adiá-las até que a coisa esfriasse”, diz ele. “Nossa prioridade agora é publicar todos os achados do sítio e continuar a trabalhar em outros lugares de Flores e de Java.”

Os novos restos do Homo floresiensis ampliam o mistério que cerca sua origem. A primeira hipótese da equipe que o descobriu postulava sua descendência a partir do Homo erectus. Afinal, esse hominídeo (com altura similar à dos humanos modernos e cérebro um terço menor) já estava no Sudeste Asiático há 1,7 milhão de anos, e existem sinais de sua presença _ferramentas de pedra_ em Flores há 800 mil anos.

A idéia é que, largado na pequena ilha milênio após milênio, o hominídeo teria diminuído de tamanho, coisa comum entre mamíferos que vivem em ilhas. Porém, as proporções dos braços da criatura, examinadas pela primeira vez, talvez apontem para outro ancestral. Motivo: eles são compridos demais, lembrando os australopitecos, hominídeos ainda mais antigos que só foram encontrados na África até hoje.

“É muito possível que o H. floresiensis tenha surgido de um ancestral de dimensões modestas, mais antigo, e não desse encolhimento de uma população de H. erectus de corpo grande”, diz Morwood. Um candidato a esse papel poderia ser o hominídeo de Dmanisi, na Geórgia (Europa Oriental). Essa criatura viveu há 1,7 milhão de anos e tinha corpo e cérebro relativamente modestos, embora também pertencesse ao gênero Homo.

“Acho que a estratégia mais prudente por enquanto é não tentar enfiar o H. floresiensis em qualquer escaninho”, avalia Greg Laden. Para ele, ainda não dá para ligar a espécie a algum ancestral mais antigo, e os efeitos da “miniaturização” dos hominídeos ainda não estão claros.

Meio sério, meio brincando, Laden também comentou a robustez (uma medida da espessura dos ossos, normalmente associada à força e à atividade física) dos novos ossos apresentados no artigo da "Nature". "Se
rá que os hobbits são mesmo o análogo ficcional correto, ou deveríamos procurar outros, como o povo de Gimli?", questionou. Seriam anões em vez de hobbits?

(Reinaldo "Imrahil" Lopes)