As Duas Torres – Um Resumo Crí­tico

"E já se passou um ano…", é o que eu pensava enquanto aparecia o o logo da New Line na tela e respirava fundo para tentar me conter. As imagens de "A Sociedade do Anel" pareciam claras demais na minha mente. Era impossível não remontar a ansiedade de um ano atrás e recordar da voz suave de Cate Blanchett, interpretando Galadriel, na narração que provavelmente foi a sua melhor participação na primeira parte da adaptação cinematográfica de "O Senhor dos Anéis".
 

"Mais um belo prólogo e vou estar vendo As Duas Torres! ", também não havia como não pensar isso. Mas o diretor Peter Jackson não queria três histórias que se encaixam harmoniosamente. Ele estava contando a sua versão de uma única história dividida em três grandes capítulos de três horas cada. Não há propriamente um prólogo da primeira parte, pelo menos não no estilo que esperávamos. A nossa primeira visão de "As Duas Torres" é extremamente familiar. De repente a tela nos arremessa em um vôo emocionante pelas Montanhas Sombrias. Por entre as nuvens e o vento, a voz de Gandalf grita baixo enquanto chegamos perto do Portão Leste de Moria. Nessa hora já estamos na ponte de Khâzad Dûm e vemos exatamente a mesma cena que nos tirou lágrimas de emoção em "A Sociedade do Anel", porém em outros ângulos de visão. Se alguém havia se esquecido de como era aterradora a visão do balrog, logo essa imagem é refeita com o mesmo fogo e sombras de antes. Gandalf realmente parece um pequeno brilho branco na ponte. Mas ao invés de acompanharmos Frodo e o Anel, dessa vez nós despencamos pelo grande abismo. Após ser puxado pelo chicote do balrog, Gandalf e ele se enfrentam durante a queda numa cena que já vale por si só a espera de um ano e traz um pensamento inesperado a quem não imaginava um início como esse: "Definitivamente não pode haver um começo melhor para As Duas Torres ".

Do horror de Moria para o desespero de Frodo e Sam nas Emyn Muil. A sensação de pessimismo e desespero dos hobbits ao descobrir que mal conseguem sair do lugar toma conta até dos antigos leitores de Tolkien, cansados de saber como aquela cena se desenrola.

Então, aparece Gollum. Nós havíamos visto boa parte dessa cena em traillers, mas agora nós vemos Gollum em cada movimento e som. Ele se move com a destreza e resmunga com a voz gorgolejante que Tolkien descreveu. Simplesmente incrível. Não é o primeiro personagem criado em computação gráfica a dividir cenas com atores de carne e osso, mas é certo que nenhum transmitiu tão bem os sentimentos que um ator de verdade deve passar. E "interpretar" Gollum definitivamente não é fácil. Ele sorri e pede perdão logo após grunhir e saltar com violência contra os hobbits, conquistando nossa simpatia e ódio ao mesmo tempo como poucos atores "de verdade" realmente conseguiriam. Confesso que senti um certo incômodo em algumas cenas. Ainda não concluí se foi por estar vendo uma figura que não existe e ao mesmo tempo correponde com tanta fidelidade à imaginação, ou se por ele definitivamente não ser perfeito sempre (apesar de parecer bem próximo disso). Prefiro dizer que é um misto dos dois.

O filme continua em ritmo frenético mostrando Aragorn, Legolas e Gimli (ofegante demais para um anão) em sua jornada desesperada por Rohan. O cenário de uma planície verde com rochas e morros ao fundo é um dos primeiros entre os vários e belíssimos que aparecem durante todo o filme. Aliás, esse é um ponto realmente positivo desse filme. As locações estão no mesmo nível ou ainda mais belas que na "Sociedade". Várias cenas parecem saltar dos livros para a tela, e Rohan é, talvez, a mais fiel de todas as adaptações. As vastas planícies da Terra dos Cavaleiros estão lá perfeitamente, e por ela correm os Uruk-Hai com Merry e Pippin como prisioneiros. Em sua primeira aparição, o jovem Tûk joga ao chão o seu broche élfico de Lórien para ser encontrado mais tarde por Aragorn, que rastreia o solo pisado pelos orcs com uma habilidade quase clarividente. Essa cena teve um quê de exagero, mas nada que incomode demais.

Dentro da Floresta de Fangorn, mais uma cena velha conhecida de traillers e retratada com rara fidelidade ao livro. Gandalf surge "O Branco" aos três viajantes, lembra-se "de quem era" e Ian McKellen mostra que realmente entendeu quem é o seu personagem com uma expressão que praticamente nega a necessidade de palavras na cena. Depois de contar (e ainda conseguir nos fazer espantar) como foi sua luta com o balrog, Gandalf e os outros aparecem nas bordas da Floresta e com um assobio chama Scadufax. Essa cena é mais um exemplo de beleza tanto da fotografia do filme quanto das locações da Nova Zelândia e a trilha sonora tem um dos momentos de maior destaque.

Até aqui a impressão é de que o filme foi perfeito, certo? Bom, esse início realmente é magnífico. Peter Jackson parece ser um especialista em começar bem um filme, porque até aqui não há mesmo muitas ressalvas a serem feitas. Mas o filme não é perfeito. Na verdade ele está bem longe disso. Aquela pergunta inevitável "Qual filme é melhor?" tem uma resposta bem complicada, talvez até subjetiva demais, mas tem sim uma resposta. "A Sociedade do Anel" tem algo mais mágico, "mais Tolkien" por assim dizer. Não que "As Duas Torres seja ruim, longe disso! Acontece que há muitos pontos bons, alguns excelentes, nele. Mas de um jeito irritante algumas vezes, tanto a edição (que corta de cenas emocionantes para passagens lentas abruptamente) quanto a forma de adaptar o livro deixam bastante a desejar. O segundo ainda mais que o primeiro. Isso acaba quase que frustrando a quem assiste o filme durante todo o seu decorrer. E parece haver uma vontade incessante de querer agradar a audiência. Não que um filme não tenha que agradar a quem o assiste, não é isso. Mas é bem nítido um certo apelo freqüente do diretor a clichês completamente dispensáveis apenas para tornar a história mais "acessível" ao grande público. O sucesso de "A Sociedade do Anel" foi justamente por não recorrer a recursos corriqueiros; o filme seguiu seu caminho, adaptou e contou muito bem a história do seu jeito. A impressão de estar contra a maré era um alívio confortavelmente agradável, e isso ficou um pouco de lado nessa segunda parte.

Um exemplo. Gandalf e os outros chegam em Edoras, a capital de Rohan em uma cena realmente bonita. A construção do cenário e a escolha do local estão perfeitas. Em constraste, a bandeira do cavalo branco sobre a relva que cai aos pés deles junto com os olhares aflitos e desconfiados dos habitantes da cidade conseguem trazer a impressão de um reino imponente em evidente decadência. Toda a cena vai muito bem até a famosa cura do Rei Th&
eacute;oden. Para começar, o rei está exageradamente maquiado e mal pronuncia palavra. Quando Gandalf ergue o cajado e fala, os soldados tentam interrompê-lo e Aragorn, Legolas e Gimli começam a lutar contra eles e a destruir o clima sóbrio e compenetrado que a cena deveria ter. Como se não fosse o suficiente, os roteiristas resolveram que Saruman fala através de Théoden com uma voz demoníaca (já que a aparência do rei não poderia ser muito piorada). Gandalf finalmente consegue terminar o seu papel de exorcis…, ou melhor, de mago, mas a cena já estava devidamente arruinada.

A essa altura Gríma já era para a audiência o vilão que deveria ser. Brad Douriff era o Língua de Cobra, isso parecia escrito em sua testa pálida. Há uma cena anterior que exemplifica muito bem como se adapta um livro para o cinema. Éomer retorna com Théodred, o único filho do rei, ferido mortalmente. Revoltado com a inércia de Théoden e com os olhares de Gríma para sua irmã, ele ameaça Gríma mas logo depois é banido daquelas terras pelo conselheiro do Rei. Certo, essa parte específica do tal banimento não colou (no livro ele é enviado preso por ordens do próprio Théoden por desobediência às suas ordens), mas fica claro o porquê do filho do rei aparecer ali para morrer. Foi uma releitura de Tolkien completamente compreensível e que se encaixou perfeitamente na trama. Miranda Otto é uma Éowyn perfeitamente convincente durante o filme, e mostra isso quando se desvencilha de Gríma que surge com uma falsa pena pela morte do herdeiro para dissuadí-la.

Frodo e Sam contiuam caminhando e Gollum dando seu show à parte. Dividido entre a crueldade do hobbit malvado que o prendeu com uma corda élfica e a bondade do mestre bonzinho que o libertou, ele mostra toda a dualidade de sua existência corrompida pelo Anel de Sauron. Um detalhe que vai passar despercebido por quem não conhece o livro, mas que com certeza iria enriquecer o enredo do filme: Gollum não demonstra sua aversão ao "Cara Amarela" e à "Cara Branca". Ele passeia e acompanha os hobbits tão bem ao sol quanto entre as sombras.
Um receio, principalmente das leitorAs de Tolkien :o) que se confirmou foi a alteração da personalidade do Faramir no filme. É compreensível que faltava cenas de ação com Frodo e Sam em "As Duas Torres", e seria ingenuidade esperar que uma adaptação fosse idêntica ao livro, sem nenhuma criação dos roteiristas. Mas eu não creio que alterar quase que por completo o comportamento de um personagem seja a melhor saída para isso. No livro Faramir é cordial e sábio, entende quem é o Portador do Anel e porque ele não pode simplesmente tentar controlar e arma principal do Inimigo; no filme ele é… o irmão de Boromir (e mesmo com o papel simplificado de irmão ele não chega a convencencer por completo).

Em um filme com tantos personagens e acontecimentos se desenrolando ao mesmo tempo, Barbárvore pode acabar caindo para um desmerecido segundo plano. Apesar de um ou outro problema com as escalas (hobbits que parecem crescer e diminuir em cada cena), o ent está lá, excelente. Merry e Pippin vêm correndo em fuga de um orc (Grishnáck, cujo nome não é mencionado) pela floresta e o pequeno Tûk escala uma "árvore" para se proteger. De repente, natural assim, ela abre os olhos. O rosto surpreso do pequeno hobbit já era conhecido de traillers, mas na seqüência completa ela se torna ainda mais bem encaixada e divertida. A principal sensação de estranhamento para quem conhece o livro é que a inusitada amizade entre os dois hobbits e o grande ent não fica muito evidente. A voz de John Rhys-Davies em Barbárvore é bem evidente e grave, e bastante rouca. A lentidão dos ents acaba sendo mostrada mais como fator cômico; o entebate não conclui que eles devem atacar Isengard e sim que Merry e Pippin não são orcs. Apenas quando a câmera mostra Barbárvore vendo de perto a devastação em sua floresta é que ele chama os ents para a Marcha contra Saruman. E a devastação deles em Isengard é uma das visões mais impressionantes e bem construídas de todo o filme. Eles arremessam pedras contra orcs e construções, e destroem a represa do Rio Isen inundando os túneis subterrâneos escavados em Isengard. Saruman corre de um lado para o outro na sacada de Orthanc, atônito e impotente contra a fúria dos ents.

Rohan se preparava para a guerra e tanto os soldados quanto os civis marchavam para o Abismo de Helm. No caminho, eles são atacados por orcs montados em lobos gigantes, wargs (que como lobos até que ficam devendo um pouco). Nessa mesma seqüência, o anão Gimli pede para ser montado em um cavalo (?!?) e cai dele pouco depois. Durante a batalha ele fica com uma expressão de palhaço quando não consegue derrotar um warg e ainda fica preso sob seu corpo morto. Sei que essa opinião não é unânime, mas eu sinceramente não consigo ver graça em um personagem cair de um cavalo em uma cena de batalha e o uso do anão como elemento cômico do filme, se não foi completamente equivocado, visto que algumas cenas envolvendo sua altura até se encaixaram bem, foi com certeza exagerado.
No combate a um orc, Aragorn acaba despencando de um desfiladeiro direto para um rio. É o gancho para aparecer Arwen em sonho. Liv Tyler continua linda, mas a cena é "slow motion" demais em relação ao ritmo do filme. Esse é um exemplo da quebra do ritmo mencionado mais acima. Arwen aparece ainda, bem melhor dessa vez, em uma visão belíssima do seu futuro, chorando no túmulo de Aragorn. É mostrada uma conversa com Elrond, seu pai, que tenta convencê-la a partir com ele para o Oeste. "Aqui você só encontrará a morte", diz ele. Elrond é mostrado bastante desesperançoso em relação ao futuro, não só dos elfos, na Terra-Média. Em uma cena estranha, em que ele parece se comunicar telepaticamente com Galadriel (ea sua única participação nesse filme), os dois parecem ter conhecimento da guerra em Rohan. É essa a explicação dada para o surgimento dos elfos de Lórien no Abismo de Helm.

Eu estava bastante receoso quanto a essa cena. Não fui ao cinema esperando ver um filme feito para os fãs, mas esperava sim explicações que fizessem lógica dentro do que foi feito de mudanças em relação a Tolkien. Se vão mudar, que pelo menos faça sentido, seja coerente. Peter Jackson não fugiu do que havia sido contado no prólogo de "A Sociedade do Anel", ele se lembrava que houve há milênios atrás uma Última Aliança entre elfos e homens. Mas – ora, bolas -, é justamente isso que Haldir diz para Aragorn quando aparece (a poucos instantes da batalha, diga-se de passagem) com uma companhia de arqueiros élficos, que estava lá para "reviver a antiga aliança". Não vi mesmo necessidade para isso, mas enfim… não comprometeu o andamento da batalha. Aliás, a batalha merece um outro parágrafo.

Foi criado desde o início do filme um
espírito de "ameaça contra a humanidade". Saruman aparece com um discurso sobre a industrialização e devastação de florestas que soou bem artificial e fora de contexto. A impressão é de que aquilo está ali para mostrar como o filme não é fantasia pura, tem um fundo moral. Realmente tem e não é mostrado tão sutilmente assim. Crianças são recrutadas para a batalha em Helm, algumas bem pequenas. Algo dispensável e que ficou forçado, mais para "chocar" e "impressionar" do que para acrescentar ao enredo propriamente dito. Mas como tudo aquilo que foi dito que seria o Abismo de Helm se confirmou com glórias, esses deslizes e alguns outros passam quase despercebidos. A multidão Uruk-Hai que se aglomerava de frente ao Forte da Trombeta era assustadora. A batalha conseguiu um nível de realidade impressionante, não devendo em nada a um filme de guerra. Em certo ponto o pessimismo entre os próprios soldados era tanto que tudo parecia mesmo perdido. A competição entre Legolas e Gimli é mencionada logo no início e depois esquecida. Talvez subentenda-se que o anão saiu vencedor quando Aragorn o atira em direção a um grande número de orcs numa ponte logo abaixo e o anão começa a arremessar os inimigos pelo abismo, em uma de suas poucas cenas levadas à sério no filme. Para quem estava mais ancioso por essa batalha do que tudo no filme, pode ficar satisfeito desde já, ela compensa a espera.

Nós nos despedimos de "As Duas Torres" com mais uma adaptação bem criativa. A idéia não era ruim, mas poderia ter sido melhor aproveitada. Faramir decide levar Frodo para Osgiliath, que está sendo praticamente tomada pelo Inimigo. A tentação do Anel e o seu peso sobre o Portador são mais exploradas do que no livro, e para coroar o desespero do hobbit sobre o futuro da demanda aparece um nazgûl em sua montaria alada. Tanto o bicho voador como o espectro estão muito bem feitos (apesar de a cabeça do lagartão ser levemente pequena em relação ao corpo, mas apenas outro detalhe). A ex-capital de Gondor está quase arruinada, é apenas um grande campo de guerra agora, e parece não faltar muito tempo até que Sauron a tome de vez. O Grande Olho vigilante aparece novamente e Frodo não resiste à tentação do Anel; o nazgûl surge imponente e ameaçador bem em sua frente. É um pouco intrigante o motivo pelo qual ele não saltou imediatamente na direção do hobbit, afinal o Anel já estava quase na ponta do seu dedo. Enfim, uma única e singela flecha de Faramir surge e derruba a montaria alada ao chão, enquanto Sam empurra Frodo evitando que ele denuncie bem nas barbas de Sauron a localização do Anel. Somente nessa hora nós temos alguma coisa do Faramir de Tolkien. Após uma cena que termina com uma frase que a platéia dificilmente vai receber sem risadinhas, ele finalmente entende a urgência da missão dos hobbits e os liberta.

O filme tem um final lindo, que pode parecer clichê, mas é tão natural e espontâneo na voz de Samwise que só não emociona quem foi assistir ao filme para reclamar. Cortando muito bem o clima de final feliz e esperançoso, Gollum retoma seus diálogos consigo mesmo, só que dessa vez é o lado que quer o Precioso de volta que sai vencedor. Ele menciona "ela" em uma deixa intrigante para quem não conhece a história e muito empolgante para quem descobre como vai ser o início de Peter Jackson para "O Retorno do Rei". Não é o final da história, se alguém ainda não descobriu que esse é só o segundo capítulo de três, mas o final não é tão aberto quando o de "A Sociedade do Anel", e causa bem mais curiosidade pela continuação. Saí do cinema quase com o mesmo sentimento de um ano atrás, ao mesmo tempo profundamente empolgado e levemente decepcionado. É um filme excelente, com pontos altos e baixos. As vantagens compensam os defeitos, mas a sensação de "poderia ter sido melhor" é inevitável de novo.