Imrahil Resenha

Bom, acho que não dá mais para postergar: estamos a menos de uma semana da estréia brazuca de "As Duas Torres" e os meus colegas aqui da Valinor já trouxeram diversas perspectivas diferentes sobre o filme. Agora, chegou a minha vez. Vou tentar fazer algo bastante detalhado (portanto, meus caros, muitos SPOILERS À FRENTE!) e, ao mesmo tempo, tentar avaliar o filme, tanto como obra cinematográfica independente quanto como adaptação do livro que todos nós conhecemos e amamos. Em resumo, vai ser dose, mas eu vou tentar. Vamos nessa?
 

Ainda por aí, hein? Boa!

Pra começar, não é completamente verdade o que mestre PJ andou dizendo: "ah, não vamos ter recapitulação". O fato é que HÁ uma recapitulação, se bem que apenas para quem viu o primeiro filme. Vemos uma tomada belíssima das Montanhas Sombrias cobertas de neve e, de longe, ouvimos o terrível monólogo de Gandalf na ponte de Khazad-dûm: "Você não vai passar!", com direito ao grito de desespero de Frodo quando o Mago Cinzento cai no abismo.

O que a gente NÃO viu no primeiro filme, porém, é o que importa. Ao contrário do que parecia, Gandalf não está nada indefeso diante da Chama de Udûn: Glamdring sobe e desce numa fúria impressionante, abrindo buraco após buraco na forma ígnea da criatura enquanto os dois inimigos rodopiam numa velocidade cada vez mais vertiginosa em direção à raiz das montanhas. Esta é alcançada – um imenso salão rochoso com um lago muito azul ao fundo. Os dois mergulham na água e…

…corta para Frodo, acordando de um pesadelo – na verdade, essa cena que acabamos de presenciar. Sam, preocupado, pergunta o que houve. "Nada, só um sonho", responde o Portador do Anel. Essa alternância constante entre cenários e narrativas é a marca registrada de "As Duas Torres" – às vezes bem-feita, algumas vezes canhestra. Desta vez a coisa funciona.

Frodo e Sam estão totalmente perdidos (e exaustos) no labirinto de rocha das Emyn Muil. Em meio à desorientação dos dois, Frodo pergunta o que tem para comer e temos uma bela surpresa: lembas! Tudo bem, Sam faz uma cara de bunda (algo do tipo "lembas, lembas e mais lembas…não agüento mais comer só lembas!") mas é um toque muito interessante.

Os dois amigos se aconchegam para dormir e eis que surge Gollum, como nos trailers: "Os ladrões, os ladrõezinhos sujos…eles roubaram nosso Precioso e nós quer ele!". Sei que vou ser uma voz dissonante neste comentário, mas Gollum não é perfeito. Nem por um momento é possível criar a ilusão de que a criatura é real, em especial nos closes, que são muitos. Mas é provavelmente o mais próximo que se consegue chegar da perfeição num personagem criado por computação gráfica, e é realmente possível sentir que houve um trabalho árduo de atuação humana por trás da criatura.

Acho que essa é a única explicação para que a interação entre Gollum e os dois hobbits seja tão efetiva: assim que ele ataca, a luta entre eles é rápida, tensa e feroz, culminando com o momento em que Frodo coloca sua espada contra o pescoço da criatura para salvar Sam: "Esta é Ferroada. Você a viu antes. Solte-o, ou eu corto a sua garganta!". O que se segue – a corda élfica atada em torno do pescoço de Gollum e o duro tratamento dado a ele por Sam, arrastando-o como se fosse um cão – é extremamente efetivo para criar empatia entre o espectador e o ex-hobbit. Fica claro que nós estamos diante de uma criatura totalmente arruinada, destruída por dentro e por fora – digna de pena, mas também de temor.

A ação seguinte é em Rohan. Aragorn, ouvido colado no chão, tenta ouvir as passadas dos Uruk-hai e se levanta para correr, gritando para Legolas e Gimli se apressarem. O elfo logo aparece, mas Gimli está lá atrás, esbaforido, de língua de fora. Essa representação excessivamente cômica do pobre anão é uma constante no decorrer de todo o filme, e sinceramente ainda não sei o que pensar dela. É boa para quebrar a tensão numa história muito sombria? Sem dúvida, mas transforma um personagem que poderia ser multifacetado num bufão puro, assim como ocorreu com Pippin no primeiro filme.

De qualquer maneira, inexplicavelmente os Três Caçadores parecem estar se aproximando dos Uruks (taí a velha mania de PJ de rasgar as leis da física). O que nos leva a Pippin e Merry, carregados pelos vilões em direção a Isengard. Usando os dentes, Pippin consegue arrancar o broche de Galadriel, achado depois por Aragorn (que, num belo e raro toque de fidelidade, repete a frase do livro: "As folhas de Lórien não caem à toa").

E lá vem mais uma mudança de cenário (um dos motivos pelos quais a primeira meia hora de filme deve ser muito cansativa pra quem já não conhece a história, imagino). Diante dos portões de Edoras, um cavaleiro se aproxima. É Éomer, carregando Théodred, o único herdeiro da Marca dos Cavaleiros, ferido de morte. Théoden (horrivelmente envelhecido, talvez mais do que o necessário) simplesmente não reconhece o próprio filho, limitando-se a resmungar o nome de Gríma. Théodred é levado para um quarto para receber os cuidados de Éowyn. Éomer, visivelmente revoltado com a situação, exige que Théoden declare guerra a Saruman. Claro que Gríma, como porta-voz do rei, rejeita a proposta e bane (!!!) Éomer do reino, sob pena de morte. Taí algo que poderia parecer um detalhe para alguns, mas que eu não engulo. É como se Jackson pensasse que o cérebro da audiência não ia agüentar tantos personagens juntos e portanto fosse preciso afastar um deles do centro dos acontecimentos. Anyway…

O que se segue é bastante compensador, uma cena que carinhosamente eu costumo apelidar de "o xaveco furado de Gríma". Théodred acabou de morrer, e Éowyn o prateia, quando Língua de Cobra aparece para se fingir compungido. "Oh, que pena…ele deve ter morrido há algumas horas…". "Deixe-me sozinha!", grita a donzela de Rohan, apenas para ouvir a pronta resposta: "Mas você está sozinha." Num texto tirado diretamente do capítulo "As Casas de Cura", de "O Retorno do Rei", Gríma parece ler os pensamentos de Éowyn: a solidão dela nas "amargas vigílias da noite, nas quais a sua vida parecia encolher, uma gaiola para trancar uma criatura selvagem". E ele a toca, devagar, no rosto. Éowyn QUASE cede. Mas resiste, gritando: "Suas palavras são veneno!" e saindo do aposento. Para mim, a cena é um exemplo do melhor que PJ faz na adaptação: desenvolvimento de personagens, emoção à flor da pele e o uso inteligente do ótimo material que ele tem em mãos (o texto de Tolkien) em
outro contexto.

Os Três Caçadores, enquanto isso, estão prestes a encontrar os Cavaleiros de Rohan. Numa paisagem lindíssima de grama e afloramentos rochosos, Éomer e seus homens nem notam Aragorn e seus companheiros, e o Guardião grita: "Quais as novas do Norte, Cavaleiros de Rohan?" (traduzido erradamente como "quais as notícias da sua terra" nas legendas, por sinal). O confronto a seguir começa bem, com o entrevero entre Éomer, Gimli e Legolas, mas basta Aragorn dizer que eles estavam procurando amigos capturados por Uruk-hai que, como por mágica, Éomer decide ajudar, emprestando Arod e Hasufel. É ridículo: "Tudo bem, vocês não parecem nem um pouco dignos de confiança, mas peguem esses cavalinhos aí, que ninguém está usando mesmo…". E, cá entre nós: como é que Língua de Cobra ia permitir que um fora-de-lei banido levasse consigo centenas de Cavaleiros para fora do reino? Deixa pra lá…

Nesse ínterim, Merry e Pippin estão passando maus bocados entre os orcs. Alguém sugere que, já que os hobbits estão sendo carregados mesmo, o bando podia comer as pernas deles. O chefe dos Uruks (Uglúk, presumivelmente, mas o nome nunca é dito) resolve o problema: mata um dos orcs e grita "A carne tá de volta no cardápio, moçada!". Realmente disgusting, mas bastante divertido.

Com a ajuda dos cavalos de Rohan, Aragorn, Gimli e Legolas alcançam o ponto onde os Rohirrim haviam lutado com os Uruk-hai. A princípio, o herdeiro de Isildur se desespera e grita, achando que os dois hobbits tinham morrido, mas ele lê os sinais no chão e revela, em flashback, a escapada dos dois hobbits para Fangorn. Tudo bem, os talentos de rastreador de Aragorn são um pouco exagerados na cena, mas ela é efetiva.

O pior é o que vem depois, o encontro dos hobbits com Barbárvore. Visualmente, a criatura não deixa a desejar, mas a hostilidade em relação a Merry e Pippin é muito maior. Barbárvore fica teimando que os dois são orcs e no fim decide: "O Mago Branco saberá o que fazer". E falando nele: entrando na floresta em busca dos dois amigos, Aragorn sente uma presença estranha, que Legolas identifica como o Mago Branco. Claro que é Gandalf: a cena sai diretamente do livro, até com a espada de Aragorn quase pegando fogo, a voz de Gandalf mudando e a célebre frase "Gandalf? Sim, esse era o nome. Eu ERA Gandalf".

Em flashback, o mago relata o fim de sua luta com o Balrog (muito bem mostrada) e sua ressureição no alto de Caradhras. Os companheiros devem partir imediatamente para Edoras e levar Rohan a enfrentar Saruman, diz Gandalf. Ao sair da floresta, ele chama Scadufax (atenção: pronuncia-se "Shadufax"), "senhor de todos os cavalos". É um animal belíssimo, e a cena é emocionante.

Rohan é inimaginavelmente linda. Assim como a música-tema do reino, que é de fazer qualquer um chorar. Mas os companheiros, ao chegar a Edoras, logo vêem que algo terrível se abateu sobre o reino: essa desolação é simbolizada pela bandeira do Cavalo sobre o Verde, nossa velha conhecida, que é arrancada pelo vento e cai no chão diante deles.

O que se segue (a maldita cena do exorcismo, seguida da expulsão de Gríma) já foi bem explorada pelos meus colegas da Valinor. Mas aproveito para destacar um ponto positivo nessa grande cagada de Peter Jackson: logo depois, Gandalf e Théoden conversam diante das simbelmynë, "sempre-em-mente", as flores brancas que cobrem os túmulos da Casa de Eorl. Não dá pra não se emocionar.

Théoden, apesar da boa interpretação de Bernard Hill, decepciona um pouco pela indecisão e pelo autoritarismo. No fim, a decisão é de evacuar a cidade e partir para o Abismo de Helm, levando toda a população civil (que já havia sido ferida fortemente pelas forças de Saruman).

Estou me estendendo demais e preciso voltar a Frodo e Sam. Só posso dizer que a passagem pelos Pântanos Mortos está ótima, e é nela que Frodo começa a compreender melhor Gollum, chamando-o de Sméagol, e acaba sendo salvo de se afogar pelas mãos de Gollum. Outra cena já célebre e emocionante é o debate interno do ex-hobbit, que, pelo menos momentaneamente, acaba sendo vencido pelo lado Sméagol bonzinho. Eles chegam ao Portão Negro (representado de forma bela e terrível, com dois enormes trolls como "porteiros") e quase são pegos por um exército de Orientais. Quem salva o dia (de forma um tanto exagerada) são as capas de Lórien, que cobrindo os hobbits faz com que eles pareçam pedras. Eles decidem tomar o "outro caminho" sugerido por Gollum e têm cenas muito divertidas em Ithilien, como a dos coelhos e das "tatas" entre Sam e Gollum.

Bem, o desastre chamado Faramir já foi convenientemente explorado pelo pessoal. Limito-me a dizer, contudo, que essas cenas canhestras ao menos servem para mostrar um pouco mais do relacionamento conturbado entre Gollum e Frodo, especialmente no episódio do Lago Proibido.

Mas voltemos a Rohan. Os refugiados, no caminho do Abismo de Helm, sofrem um ataque de wargs e, no combate que se segue, Aragorn cai de um penhasco e é dado como morto. Eis o pretexto para enfiar Arwen na narrativa. Aragorn sonha com ela, e é mostrado o debate entre a elfa e seu pai Elrond, que insiste para que ela vá para os Portos. Apesar da forçação de barra para mostrar a história de amor, há pelo menos cenas tiradas diretamente dos Apêndices (a morte de Aragorn em Minas Tirith) que são realmente belíssimas.

Aragorn, salvo inexplicavelmente por um cavalo perdido de Rohan (que praticamente o coloca sobre o próprio lombo) vê o exército de 10 mil Uruk-hai indo para o Abismo e corre para alertar Théoden. O cerco que se segue, embora muito bem-filmado e emocionante, me deixou com a sensação de que os muitos minutos de ação poderiam ser melhor usados para desenvolver melhor os personagens. Bom, pelo menos o Haldir (mais conhecido como o Elfo Rogéria) passa desta para melhor no combate.

Esta é a hora em que Théoden, finalmente, brilha: ele recita o poema "Where now the horse and the rider", tirado diretamente do livro, e finalmente decide sair para o combate, usando palavras faladas, no livro, por Éomer durante a batalha do Pelennor. Os cavaleiros saem do Abismo abrindo caminho entre os Uruks enquanto Gimli sopra a trompa de Helm. Éomer e seus homens surgem, trazidos por Gandalf; e a batalha é finalmente ganha. Os ents, reunidos no entebate, a princípio decidem não lutar, mas mudam de idéia ao ver a destruição das árvores perto de Isengard (como se eles já não soubessem disso…). Anyway: eles caem de pau sobre Isengard, quebram o dique que segurava as águas do Isen e levam Saruman ao desespero, acompanhados dos incrédulos e felizes Merry e Pippin.

Em Osgiliath, Frodo e Sam são confrontados por um dos nazgûl e lá vem a nova cagada: Frodo oferece o Anel à criatura, que só não o pega porque Faramir flecha a montaria alada do Cavaleiro Negro. Ao ver a tentação d
e Frodo, Faramir "percebe" o seu erro (oh!) e decide liberar o hobbit, não sem ser antes comovido por um discurso apaixonado de Sam que é uma das coisas mais emocionantes do filme. O tema dele é o valor de continuar lutando por um mundo que ainda tem coisas boas, e as histórias que realmente importam -no caso, a história onde Frodo e Sam se encontram naquele momento.

Não dá pra não chorar. Livres, os hobbits recuperam um pouco da esperança e da alegria, enquanto Sam pergunta se algum dia contarão histórias sobre eles: "Vamos ouvir sobre Frodo e o Anel?". E eu continuava chorando ;-) O clima, porém, é quebrado pela aterradora nota final: Gollum tem novo debate interno e, desta vez, o lado mal vence. E ele menciona Ela – Laracna.

A conclusão? É um filme irregular, mas belo, que vale a pena ser visto mais de uma vez. Meu conselho é: esqueçam Faramir e se concentrem no que Sam diz nesse emocionante final. Apesar dos tropeços, PJ ao menos conseguiu perceber porque a história que ele está contando vale a pena ser contada. E isso não é pouco.

[Reinaldo "Imrahil" J. Lopes]

Comentários

  1. Considerando que eram necessárias adaptações, o filme não foi dos piores, ok As Duas Torres foi a pior adaptação da trilogia. Concordo que o Faramir ficou uma desgraça e a questão do Eomer também, mas convenhamos…você reclamou de tanta coisa e não falou NADA de elfos no Abismo de Helm? Isso foi a pior coisa do filme, eu simplesmente não consigo engolir esse segmento.