Senhor dos Anéis – As Duas Torres

Confesso que é uma tarefa difícil escrever um review de As Duas Torres tendo visto o filme apenas uma vez. Fica difícil descrever as cenas em detalhes quando as emoções que elas provocaram estão muito mais vivas na memória. Portanto, vou tentar passar aqui minha impressão do filme e não fazer um resumo dele.
 

Então vamos direto ao ponto: As Duas Torres é um filme fantástico! Extremamente bem feito do ponto de vista técnico, empolgante, capaz de cativar a audiência durante as três horas de duração. Mas, como adaptação do livro de J. R. R. Tolkien, o filme deixa a desejar. Isso gera bastante confusão na hora de responder a pergunta inevitável: "É melhor do que a Sociedade do Anel?" Sim e não. Isso de certa forma já era esperado, Peter Jackson já tinha deixado claro que esse filme seria o que traria mais modificações dentre os três, mas também sabíamos que seria mais dinâmico e com um ritmo mais rápido do que o primeiro. Vou tentar destacar os pontos que mais me chamaram a atenção sem carregar demais de spoillers.

Rohan está lindíssima. O cenário de Edoras é de encher os olhos e os personagens, desde os figurantes até os principais, estão muito bem. Destaque especial para Miranda Otto e Brad Dourif. Quem temia ver Éowyn transformada em "mulher-macho" pode ir assistir o filme sossegado. A famosa cena da luta de espadas entre ela e Aragorn é apenas um detalhe e não compromete de maneira alguma a bela participação da personagem. O mesmo pode ser dito de Gríma, que me impressionou bastante. Embora sua participação não seja muito grande, ele convence a audiência em seus momentos na tela. Aliás, uma passagem que me emocionou foi a cena em que Gríma tenta enredar Éowyn em sua trama, simplesmente fantástica. Théoden e Éomer não têm tanto brilho mas não prejudicam também. O Rei alterna momentos de destaque com momentos de tirania, mas isso é uma falha do roteiro e não do ator. Éomer aparece pouco e foi prejudicado pela adaptação. Eu disse que não ia exagerar nos spoillers mas aqui não consigo me conter: Éomer é banido de Rohan sem uma explicação muito convincente e retorna no momento crítico da Batalha do Abismo de Helm. Sua participação é pequena e fragmentada. E já que estamos falando da Terra dos Cavaleiros, menção especial merece Scadufax. O momento em que o cavalo aparece atendendo ao chamado de Gandalf é simplesmente incrível!!! A trilha sonora nesse ponto dá um show à parte, maravilhoso!

Vamos falar um pouco de hobbits agora. Merry e Pippin têm pouco tempo na tela em As Duas Torres. Mas os que reclamaram que o jovem Peregrin foi transformado em um palhaço no primeiro filme terão uma boa surpresa dessa vez. E não tem como não falar de Barbárvore agora. Eu gostei bastante do resultado, embora usar a voz de John Rhys-Davies não tenha sido uma idéia brilhante dos produtores. Muita gente saiu do cinema um pouco decepcionada com Barbárvore, mas o que mais me incomodou foi a relação dele com os hobbits. Ficou distante da amizade que surge entre os três no livro e, na minha opinião, desperdiçou-se diálogos belíssimas da obra. A Floresta de Fangorn e as cenas que se passaram lá não chegam a decepcionar tanto como Lothlórien, mas existe um paralelo: passagens brilhantes dos livros mal aproveitadas nos filmes. Mas o ponto alto da participação dos Ents é a destruição de Isengard não deixa nada a desejar. E dessa cena, podemos tirar um exemplo de uma modificação que não prejudica: no livro, o rio Isen é desviado de seu curso para inundar Isengard e no filme, os Ents destroem uma represa. Poupou tempo e ficou fantástico assim mesmo.

É difícil falar sobre Frodo, Sam e Gollum, tamanha a emoção que algumas das cenas provocam. Deixem todos os seus medos em casa quando forem assistir ao filme: Gollum é tudo que se podia esperar! Sem dúvida é o que mais gostei nesse filme. As expressões, os diálogos, tudo fantástico. Peter Jackson foi muito feliz ao retratar o conflito interno que se passa dentro do personagem. E me impressionou a naturalidade das cenas entre os hobbits "de carne e osso" e o nosso amiguinho digital. Já disse e repito: fantástico!!! Elijah Wood conseguiu passar a "sombra" que vai tomando conta de Frodo, o "peso" do Anel, de forma satisfatória. É verdade que existiu uma passagem e um diálogo infeliz envolvendo os hobbits mas, de uma maneira geral, ficou muito bom.

Aqui me cabe fazer um comentário triste: Faramir. Isso realmente me irritou profundamente. Fizeram Faramir parecer uma versão de Boromir, alias, pior que Boromir. Simplesmente decepcionante como transformaram a natureza gentil e reflexiva do personagem em algo próximo a pura falta de caráter. É verdade que o ator David Wenham não colaborou muito e conseguiu ser o destaque negativo do elenco. Por outro lado, o refugio em Ithilien ficou maravilhoso, acho que conseguiu ser aquilo tudo que imaginávamos.

Vamos ao resto da Sociedade agora. Aragorn, Legolas e Gimli tem bastante destaque e quem achou que o elfo e o anão tiveram pouca participação no primeiro filme vai ser recompensado agora, pelo menos em termos de tempo na tela. Notem bem, eu disse "tempo" e não qualidade. Gimli, de certa forma, assumi o lugar de palhaço deixado por Pippin. Eu particularmente não gostei muito do que fizeram com o personagem embora não concorde que todas as passagens cômicas envolvendo o anão sejam abusivas. Apesar dos exageros, no Abismo de Helm, temos uma certa compensação, Gimli é mostrado como um verdadeiro guerreiro e tem uma atuação decisiva. Legolas já é melhor caracterizado e tirando a cena em que ele encarna "karate kid" diante do trono de Théoden (na cena do exorcismo… eu vou chegar lá) cumpre muito bem seu papel. Legolas esbanja frases em élfico (é, temos bastante delas nesse filme) e mantém seu papel de guerreiro. Embora não tão ruins como a cena "karate kid", tem duas outras passagens que não gostei muito. A primeira é a já famosa cena do "surf de escudo", completamente desnecessária. A segunda é um "bate-boca" com Aragorn e posterior pedido de desculpas, que acabou sendo uma forma forçada de tentar mostrar a amizade entre os membros da Sociedade (torça para não ter um engraçadinho na sua sala de cinema para gritar "beija, beija!!").

Bem, agora me resta falar de algumas cenas particulares que merecem comentários. A luta de Gandalf com o Balrog de Moria é muito boa, um começo verdadeiramente espetacular. O encontro entre Éomer, Aragorn, Legolas e Gimli começa muito bem, mas a pressa faz com que a cena seja muito condensada. O exorcismo, nome "carinhoso" pelo qual ficou conhecida a cena em que Gandalf "cura" Théoden, ficou muito forçado e visualmente não muito bom. Acho que todos ti
nham em mente algo mais sutil e não o "xô satanás!!" seguido de recuperação imediata do Rei que Peter Jackson nos mostrou. Um detalhe, mas que ficou impressionante: o Morannon (portão Negro de Mordor) é aberto por Trolls gigantescos. Esses pequenos detalhes contam pontos para o filme e talvez tenham faltado um pouco em as Duas Torres. Ainda falando dos detalhes, temos uma cena divertida envolvendo Lembas, o pão de viagem dos elfos que infelizmente foi cortado da versão de A Sociedade do Anel apresentada nos cinemas. Passando dos detalhes para algo bem maior, temos os olifantes e os homens do leste, que estão bastante impressionantes. Os wargs já decepcionaram um pouco, não lembram muito lobos, mas a cena de batalha em que eles aparecem compensa.

Agora o que eu deixei propositalmente para o final, Arwen e elfos no Abismo de Helm. As cenas envolvendo Arwen foram um desperdício de tempo (na minha opinião, claro). Mas concordo que Peter Jackson não podia omitir a personagem nesse filme e esperar até o casamento para mostrá-la novamente. Uma das cenas em que ela aparece é um retrato bem fiel de uma passagem dos apêndices do livro e seria suficiente para que ela não passar em branco nesse filme. Pelo menos não precisamos mais nos preocupar com Arwen aparecendo no Abismo de Helm, matando Orcs ou salvando Aragorn, pelo menos por enquanto. A presença de elfos no Abismo de Helm não é tão ruim feito eu imaginava, tirando a maneira como vão parar lá, já que não há uma explicação convincente para a chegada súbita e milagrosa do exército. Elrond e Galadriel parecem ter uma conversa telepática (a longa distância) na qual decidem mandar ajuda e eis que surge Haldir (usando uma capa vermelha esvoaçante, diga-se de passagem) para salvar a pátria.

Depois de ter dito tudo isso, ainda fica a pergunta: "e então, o filme é bom?" Respondendo de forma clara e objetiva: é maravilhoso. E verdade que muita coisa podia ser diferente, mas é impossível assistir o filme e não se emocionar genuinamente. E penso que o mais importante seja isso, As Duas Torres não é mais um filme de fantasia e aventura, é um filme único, impressionante e que mesmo com seus defeitos, sabe conquistar a audiência.