A Origem dos Orcs

“É, porém, considerado verdadeiro pelos sábios
de Eressëa que todos aqueles quendi que caíram nas mãos de Melkor antes
da destruição de Utumno foram lá aprisionados e, por lentas artes de
crueldade, corrompidos e escravizados; e assim Melkor gerou a horrenda
raça dos orcs, por inveja dos elfos e em imitação a eles, de quem eles
mais tarde se tornaram os piores inimigos."
 
 
 
Esta é a
versão para a origem dos orcs mais conhecida dos leitores. Contudo,
Tolkien não nos dá uma versão definitiva, e nas suas cartas e textos
mostra que ele próprio não tinha certeza sobre o tema.

Para a origem dos orcs, podemos discutir diversas possibilidades. A começar pela pergunta: será que Melkor é o criador dos orcs?

Barbárvore, no Senhor dos Anéis, diz que “…
os trolls são apenas imitações, feitas pelo Inimigo na Grande
Escuridão, à semelhança dos ents, como os orcs foram feitos à
semelhança dos elfos"
.

Tolkien, numa de suas cartas,
afirma que Barbárvore, nesse caso, está errrado! Segundo a carta,
Barbárvore não passaria de um personagem da saga. E ele, além disso,
apesar de sua grande memória e conhecimento, não era um dos Sábios,
havendo muito que• desconhecia ou não entendia. Portanto, Melkor não
teria criado os orcs. Mas por quê?

Pelas
concepções de Tolkien, bastante semelhantes às de santo Agostinho, Eru
é o Criador, é bondade pura e fonte de todo bem. O mal não provém
dele, mas do mau uso do livre-arbítrio – a Chama Imperecível. Na
realidade, para Tolkien não existiria o mal, apenas a ausência do bem –
a ausência de Eru. O mal seria apenas isso: a ausência de Eru. E porque
é negativo, ausência, e não positivo, ser, o mal não• poderia criar
nada. Assim, lemos em O Silmarillion que “…nada que tivesse vida
própria, nem aparência de vida, Melkor jamais poderia criar desde sua
rebelião no Ainulindalë antes do Início". E os orcs eram criatura
vivas, e não apenas simulações de vida. Portanto, podemos descartar a
opção de Melkor como criador e nos perguntar se os orcs seriam
deturpações dos Filhos de Eru.

A idéia de que orcs são
elfos corrompidos, devida ao texto de O Silmarillion citado acima, é
amplamente conhecida e aceita. Mas devemos atentar para o fato de que
essa é a opinião dos sábios élficos, e não necessariamente a verdade.
Christopher Tolkien, numa das notas aos Contos Inacabados, escreve: “Em
O Silmarillion diz-se que os orcs foram criados por Melkor a partir de
elfos aprisionados no princípio do seu tempo; mas isso era apenas uma
de diversas especulações acerca da origem dos orcs"
.

Tolkien
ter escrito que os sábios de Eressëa acreditavam e não ter simplesmente
estabelecido isso, não indica a verdade ou falsidade do fato. Essa
construção poderia ser um recurso estilístico. E Tolkien poderia estar
desejando dar veracidade ao fato, já que os sábios élficos eram os mais
sábios entre todos os seres da Terra-média. A nota de Christopher
Tolkien, assim como as cartas de Tolkien sobre o assunto e textos
encontrados nos The History of Middle-earth, demonstram que não podemos
ter certeza.

A idéia de orcs como elfos corrompidos porém,
tem alguns problemas. Primeiramente, temos que nos lembrar do destino
final dos fëar (‘almas’ em élfico) dos elfos e seres humanos. O destino
dos fëar dos elfos, após sua morte, são os Salões de Mandos, na ilha de
Aman, donde, posteriormente, eles poderiam eventualmente voltar à
Terra-média. Dos fëar humanos é dito que, após uma breve estada nos
Salões de Mandos, separados dos salões dos elfos, iriam para algum
destino desconhecido.

Morgoth, apesar de seu grande poder,
não poderia alterar o destino final dos fëar dos elfos e homens, ou
qualquer um dos outros valar. Para isso é necessária a intervenção
direta de Eru, como no caso dos meio-elfos, a quem Eru deu a escolha
entre um e outro destino, ser humano ou élfico. Bem, se os orcs são
elfos corrompidos, e os fëar élficos vão para Aman, isso significa que
a terra de Valinor, a Terra Abençoada, a Terra Sem Mácula, onde nada se
corrompe, estaria bastante povoada de fëar órquicos, já que os elfos,
após corrompidos em orcs, ao morrerem iriam para Aman. Esta é uma
contradição terrível: a Terra Sem Mácula maculada por elfos corrompidos…

Consideramos
que isso torna a idéia de orcs como elfos corrompidos muito difícil de
crer. Pois os orcs não seriam apenas corrompidos, mas absolutamente
corrompidos. Nenhum orc era capaz de fazer o bem, nenhum orc estava com
Eru. Fëar corrompidos em Valinor seria uma vitória de Melkor, que teria
levado o mal à Aman. Como crer que tais fëar pudessem ir para Valinor ?


alguns que defendem que os orcs poderiam ser elfos cujos fëar tivessem
abandonado seus hröar (‘corpos’, em élfico), devido ao sofrimento. Os
orcs seriam então hröar sem fëa, mantidos vivos pelos poderes do
Necromante, que é como Sauron foi nomeado quando estava em Dol Guldur,
indicando talvez seu poder de manipulação dos mortos. Mas é dito em
Morgoth’s Ring (The History of Middle-earth 10) que existe uma união
entre o fëa e o hröa, feita por Eru, completada no momento da concepção
e que “nenhuma pessoa viva [encarnada] pode existir sem um fëa, nem sem um hröa". Um fëa que escolhesse não voltar a vida “não poderia operar em Arda, ou comunicar-se com os fëar dos Vivos".
Mas poderia o hröa continuar a existir sem o fëa? Difícil, todas as
coisas materiais na Terra-média estavam sujeitas à rápida decomposição
e somente em Aman não havia deterioração.

E é dito em O Silmarillion que “os orcs tinham vida e se multiplicavam da mesma maneira que os Filhos de Ilúvatar".
Portanto, como os orcs poderiam ser hröar sem fëar? Como um corpo, cuja
essência tivesse sido retirada, continuaria a viver e a procriar? Um
filho de elfo, mesmo corrompido e sem fëa, sempre será um elfo.

Além de que a criação de vida, pela concepção, também é um ato de Eru. A corrupção dos hröar nunca poderia criar nova vida.

Podemos
então, procurar outra forma de vida que pudesse ter sido corrompida. Os
homens são uma boa possibilidade. Os fëar humanos não estão, como os
élficos, presos a Arda, e vão para um destino desconhecido. Entre os
homens encontramos diversas das características dos orcs (apesar de
encontrarmos também as mesmas qualidades dos elfos), como a inveja, a
mentira, a traição…

Sabemos que no início da história
dos homens, eles estavam sob o domínio de Morgoth. No encontro de
Finrod e Bëor, em O Silmarillion, este diz que atrás deles estão as
trevas a que eles deram as costas, a procura do oeste e da Luz. A queda
do homem, sua submissão ao mal, tomando Morgoth como Senhor, segundo o
texto “Tale of Adanel" (Morgoth’s Ring, The History of Middle Earth
10), teria acontecido antes que qualquer homem ainda tivesse morrido. E
no final do texto, é dito que “nossos fëar (almas) negaram sua própria
natureza e tornaram-se negras, enfraquecidas e quase até à morte. E
devido à grande fraqueza de nossos fëar, nossos hröar (corpo/matéria)
perderam a vitalidade e ficaram abertos a todos os males e desordens do
mundo.�? Portanto, antes que os elfos os encontrassem e os ensinassem
sobre Eru, os homens estavam dominados por Morgoth e Sauron. E poderiam
ter sido usados para a criação dos orcs.

No texto “Myths Transformed" (Morgoth’s Ring, The History of Middle Earth 10), Christopher Tolkien escreveu que: “Essa
parece então ter sido a visão final de meu pai sobre a questão: orcs
foram criados a partir dos homens, se a concepção dos orcs na mente de
Melkor aconteceu na noite dos tempos, foi Sauron que, durante os anos
de cativeiro de Melkor em Aman, trouxe, à vida, os exércitos negros que
estavam disponíveis a seu Senhor quando este retornou."

Isso poderia representar um ponto final nas discussões. Mas não
consideramos assim. Pois essa é a opinião de Christopher e não do seu
pai. Além disso, essa origem tem em si alguns problemas para se adequar
ao mito.

Pois é dito que os homens acordaram ao primeiro
nascer do Sol, fato que ocorreu após sete viagens da Lua, momento em
que os noldor que atravessaram Helcaraxë chegaram à Terra-média.
Contudo, antes disso, Fëanor já havia chegado às Terras de Fora, e já
haviam começado as guerras entre os elfos e os orcs. Como poderiam
existir orcs originados dos homens se estes ainda não haviam acordado?

O que podemos dizer é que os homens já haviam acordado. E podemos
sugerir que,• afirmar que o momento em que os homens acordaram foi ao
nascer do primeiro Sol, assim como• falar que o momento em que os elfos
acordaram foi quando Varda encerrou seu trabalho de criação das
estrelas, são formas poéticas. Pois os elfos sempre procuraram a beleza
em seus textos. E nem mesmo os valar sabiam do momento exato em que
ocorreria o acordar dos Filhos de Ilúvatar.

Novamente citando o encontro de Finrod e Bëor, ficamos sabendo que os
homens sabem muito pouco sobre sua história inicial, havendo um grande
silêncio sobre seu passado. “Atrás de nós, ficam as trevas",
diz Bëor. Nesse mesmo sentido encontramos o diálogo ente Finrod e
Andreth (The History of Middle-earth 10). Ela fala da “escuridão que
está agora confinada no Norte… Mas que uma vez jazeu sobre toda a
Terra-média, enquanto vivíeis em vosso contentamento".

Em ambos os textos, vemos o elemento da escuridão. Podemos entendê-lo
como uma escuridão interior, devida ao domínio do Senhor do Escuro
sobre eles. Mas podemos também entender a escuridão literalmente.
Homens acordados antes do nascer do Sol, vivendo na noite sem fim,
aterrorizados por Morgoth e suas criaturas, enquanto os elfos viviam em
Valinor junto à luz das Duas Árvores.

Contudo, apesar da idéia dos homens originarem os orcs ser um forte
argumento, a proposição sobre a cronologia fica um pouco prejudicada.
Na verdade estamos distorcendo a história ao dizer que o nascer do sol
é apenas um momento simbólico para o acordar dos homens.

Abandonando a opção de corrupção, ficamos com a possibilidade dos orcs
terem sido criados durante a Grande Música, pelo poder de subcriação
dos ainur vindo da potência de Eru.

Não encontramos nenhuma alusão direta para confirmar essa tese em O
Senhor dos Anéis, Contos Inacabados ou O Silmarillion. Mas lendo “The
Earliest Silmarillion" (The Shaping of Middle-earth -The History of
Middle-earth 4), encontramos: “As Terras de Fora estavam nas
trevas. O crescimento dos seres tinha cessado após Morgoth ter
destruído as lamparinas. Havia florestas de escuridão, de teixos,
abetos e heras.• Oromë algumas vezes caçava, mas no norte Morgoth e
suas crias demoníacas (balrogs) e os orcs (‘goblins’, também chamados
de Glamhoth ou povo do ódio) dominavam. Bridhil [Varda] viu o escuro e
começou a trabalhar, e tomando toda a luz armazenada de Silpion (a
árvore branca) ela fez as estrelas e as espalhou. No momento em que as
estrelas foram feitas, os filhos da Terra – os Eldar (ou elfos) –
acordaram"
.

Então havia orcs, mesmo antes do acordar dos elfos.

Pode-se argumentar que esses orcs não eram a espécie de orcs que
conhecemos. Parece que os elfos só se depararam com os primeiros desses
orcs após terem sido encontrados por Oromë, depois que Morgoth foi
levado cativo à Valinor derrotado na guerra contra os valar. Tolkien,
numa nota em Morgoth’s Ring, escreve que “os Quendi nunca tinham
encontrado um Orc desse tipo antes de terem sido encontrados por
Oromë". A etimologia da palavra “orc" (“ork/orko" em quenya, “orch" em
sindarin) vem de “urko" (raiz ÓROK), denotando qualquer coisa que
causa medo ou horror (“Myths Transformed", Morgoth’s Ring). Diz Tolkien
que “algumas dessas coisas podem ter sido ilusões e fantasmas, mas
algumas eram, sem dúvida, formas tomadas pelos servos de Melkor
imitando e degradando as formas verdadeiras dos Filhos de Ilúvatar.
Pois, Melkor tinha sob seu serviço um grande número de maiar, que
tinham o poder, como seu mestre, de tomarem formas visíveis e tangíveis
em Arda". E numa nota, Tolkien diz que “Melkor tinha corrompido muitos
espíritos – alguns poderosos como Sauron, outros menores como os
balrogs. Estes poderiam ter sido os orcs primitivos".

Mas o fato dos elfos não terem encontrados os orcs não indica que eles não existiam.

Outro trecho que encontramos no “Ainulindalë" do The Lost Road – The
History of Middle-earth 5 diz que “Melko por algum tempo vagou
sozinho… Poucos da raça divina foram até ele, e dos Filhos de
Ilúvatar nenhum o seguiu, só foram como escravos, e os que o
acompanhavam eram de sua própria obra: os orcs e demônios que por muito
tempo perturbaram a terra, atormentando homens e elfos". Portanto,
elfos e homens, os Filhos de Ilúvatar, não pertenciam às hostes de
Melkor, e não devem ser confundidos com os seus companheiros – os orcs
não seriam então originados nem de elfos ou homens, tendo sido criados
por Melkor.

Mas como poderia Melkor ter criado alguma coisa?

Sabemos que todos os poderes de criação são de Eru. E que Eru deu aos
ainur a capacidade de subcriação, isto é, eles poderiam também criar
usando os poderes de Eru. E Melkor era um ainu, o mais poderoso dentre
eles. Se prestarmos atenção às palavras de Tolkien, vemos que “Melkor jamais poderia criar desde sua rebelião no Ainulindalë antes do Início [grifo meu]". Mas antes da rebelião, no momento em que Arda estava sendo criada, durante a Grande Música, Melkor ainda possuía seus poderes.

Vamos analisar a Grande Música em O Silmarillion.

No início, Eru dá aos ainur temas musicais, que cantam sozinhos ou em
pequenos grupos, enquanto os outros ouvem, pois cada um compreende
apenas sua parte, a parte da mente de Ilúvatar da qual se originara.
Com o passar do tempo, eles começam a ter uma compreensão mais
profunda, e então Eru os reúne e lhes indica um tema que eles adornam
ao seu estilo, pois possuíam a Chama Imperecível. Com o desenrolar da
Grande Música, contudo, Melkor começa a entremear o tema de Eru com os
seus próprios, e surge uma dissonância. O que estaria Melkor criando
nesse momento? O que a dissonância poderia estar causando à Criação?
Podemos apenas supor. Mas essa dissonância cresceu, e “as melodias que haviam sido ouvidas antes soçobraram num mar de sons turbulentos". Ergueu-se Ilúvatar, e levantou a mão esquerda. “E
um novo tema surgiu em meio à tormenta, semelhante ao tema anterior e
ao mesmo tempo diferente, e ganhava força e apresentava uma nova
beleza. Mas a dissonância de Melkor cresceu em tumulto e o enfrentou.
Mais uma vez houve uma guerra sonora, mais violenta que a anterior"
. Podemos imaginar as lutas entre Melkor e os valar na formação de Arda, seguindo o padrão da música.

“Ergueu-se então novamente Ilúvatar, e os ainur perceberam que sua
expressão era severa. Ele levantou a mão direita, e vejam! Um terceiro
tema cresceu em meio a confusão, diferente dos outros. Pois, de início
parecia terno e doce, um singelo murmúrio de sons suaves em melodias
delicadas; mas ele não podia ser subjugado e acumulava poder e
profundidade. E afinal pareceu haver duas músicas evoluindo ao mesmo
tempo"
, uma profunda, triste e bela, outra fútil e barulhenta.
Então Ilúvatar ergueu as duas mãos, a música cessou, e ele mostrou aos
ainur sua criação, pois “nenhum tema pode ser tocado sem ter em mim
sua fonte mais remota, nem ninguém pode alterar a música contra a minha
vontade. E aquele que tentar, provará não ser senão meu instrumento na
invenção de coisas ainda mais fantásticas, que ele próprio nunca
imaginou."

E no terceiro tema os Filhos de Ilúvatar foram criados. Os elfos foram
criados primeiro, os Primogênitos. Depois foram criados os homens, com
a estranha dádiva da insatisfação e da liberdade. E entre eles, podemos
ver os orcs, que foram concebidos na dissonância, em imitação aos
Primogênitos. E podemos considerar a criação dos homens como o fator
decisivo na luta entre os ainur e Melkor. Pois os homens são a raça que
está sempre em contradição consigo mesma, lutando tanto ao lado dos
valar quanto de Morgoth. E que faz com que, na Grande Música, o
terceiro tema de Ilúvatar seja vitorioso.

Os orcs foram realmente criados pela malícia de Melkor, em escárnio aos
Filhos de Ilúvatar. E não podem ser chamados de Filhos de Eru por não
terem sido criados no terceiro tema, mas na dissonância de Melkor. E
também por não terem fëa. Pois como escreve Tolkien, “acho que deve-se
assumir que ‘falar’ não é necessariamente o sinal de posse de uma ‘alma
racional’ ou fëa", assim os animais e os dragões também não a possuem.
Orcs não têm fëa, nenhuma alma a ser salva no final dos tempos. São
somente “bestas de forma humana [para zombar dos homens e dos elfos],
são deliberadamente pervertidos".

Assim, os orcs podem ser realmente considerados da maneira como são chamados, os Filhos de Melkor, Melkorohíni.

Fontes:
-Tolkien, J.R.R, O Silmarillion. Marins Fontes Editora.
-Tolkien, J.R.R, Contos Inacabados.Editora Europa-América.
-Tolkien, J.R.R, Letters, traduções minhas.
-Tolkien, J.R.R, Coleção The History of Middle-earth, traduções minhas e do site Valinor (http://www.valinor.com.br)