Celeborn Unplugged

Constantemente alguém pede para que eu fale sobre Celeborn. Ele é, talvez, o mais mal-falado e incompreendido dentre todos os personagens de Tolkien. Muitas pessoas consideram o Senhor de Cabelos Prateados de Lórien como sendo tolo ou mesmo ridículo. Por que? Basicamente por uma frase proferida por Galadriel.

E agora os sabres da racionalização começam a censurar em suas bainhas: “Oh, mas ele não faz realmente nada no livro!” dizem os seus detratores. Da mesma forma, Galadriel deixa o seu capacho real e faz alguma coisa? Perdão. Nesse mato não tem Warg. Nenhum dos dois personagens faz muito na história. Os dois realizam muitíssimo no segundo plano: Galadriel ajuda Gandalf e Celeborn ajuda a derrotar as forças de Dol Guldur. Juntos, eles lideram os Elfos de Lórien. A principal reclamação que muitos parecem ter contra Galadriel é perguntar o que ela está fazendo com um idiota como Celeborn. Francamente, pelo meu livro, qualquer um que consegue se casar com uma Galadriel é um vencedor, mas isso é apenas a minha opinião. Chame isso de uma interpretação do texto. Diga que eu estou lendo algo no texto que não está lá. Isto não é como se ninguém houvesse feito isso antes.

O principal problema com Celeborn é que Tolkien nunca se decidiu sobre ele. Por exemplo, Tolkien o chamou “Celeborn o Sábio” e pessoas perguntaram: “Por que?” O único comentário de Robert Foster no verbete em The Complete Guide to Middle-earth é dizer que Celeborn não parece especialmente claro em O Senhor dos Anéis. Ora, quem parece? Alguém pretender questionar se Samwise Gamgi (cujo primeiro nome significa “meio-inteligente”) é um modelo de inteligência? Ou que tal Gimli, filósofo-anão que ele é, exaltando as virtudes das rochas?

Mesmo o personagem mais inteligente na Sociedade, Gandalf, não se deu conta de que Saruman o havia traído. Qual foi a última vez que Celeborn foi capturado por agentes do Inimigo? Ok, talvez isso não seja justo com Gandalf. Entretanto, alguém deve ser capturado, e ele é um prisioneiro conveniente. Ele é astuto e reservado – é admirável que Saruman não o tenha aprisionado mil anos antes.

É claro, a definição de Tolkien para “sábio” parece diferir da definição da maioria das pessoas atualmente. Tolkien não quis dizer “Celeborn o Sabe-tudo”. Quando a Sociedade aparece em Lórien, eles não estavam de olhos vendados, amordaçados, amarrados, arremessados na mala de um Lincoln Town Car e rodaram por aí durante três horas, e então forçados a confrontar o Senhor élfico mau-humorado na escuridão de um armazém. “Se vocês aí pensam que vão conseguir alguma ajuda de nós, se enganaram vindo até aqui! Oh, droga. Lá vem a patroa. Todos aí peguem uma harpa e se comportem como ELFOS!”

Tolkien também não quis dizer “Celeborn o Sábio espirituoso”. “Ei, Gimli! Com quantos anões se troca uma lâmpada?”

Mas quando se fala “os Sábios”, geralmente eu fico com a sensação de que interpreta-se “os Sábios” como os elfos mais inteligentes. E qual seria a justificativa para esse tipo de pensamento? Fëanor foi o elfo mais inteligente de seu tempo, e vejam onde o seu cérebro o levou. Ter inteligência confere algum tipo de sabedoria? Certamente que não. Nsa verdade, pessoas inteligentes cometem os mais estúpidos e tolos erros. A História é marcado pelos erros dos mais brilhantes.

Sabedoria é uma combinação de conhecimento, experiência e intuição. E todos os elfos de Tolkien possuem conhecimento, experiência, e intuição. Até mesmo Legolas, que parece ser jovem para um elfo (provavelmente não teria mais do que algumas poucas centenas de anos), tem conhecimento, experiência e intuição. Ele é sábio além dos anos de qualquer mortal, certamente. Entretanto, ele é um dos Elfos-Sábios? Aparentemente não. Ainda assim, ele aceita partir na missão para a Montanha da Perdição e termina por encontrar seu destino além do Mar. Adeus, Terra-Média. Olá, aposentadoria forçada em Aman.

Alguns parecem acreditar que uma boa capacidade de dedução é um aspecto da sabedoria. De fato, uma pessoa sábia iria colher todas as provas e concluir que Moriarty é mesmo o culpado. Mas Celeborn não é Sherlock Holmes, meu caro Watson. E nem deveria ser. Entretanto, Celeborn sabe quem é o seu inimigo. Ele não é questionado com dúvidas graves ou tentações, tal qual sua esposa. Ele tem um personalidade bastante sólida a esse respeito.

A credibilidade de Celeborn enquanto um sábio é normalmente questionada em três pontos: por que ele é repreendido por Galadriel perante a sua côrte e da Sociedade; por que ele não pertence ao Conselho Branco; e por que ele não quer o Um Anel? É evidente, a razão pela qual ele é repreendido é que Tolkien quer explicar algo ao leitor. E o que o autor está tentando nos dizer?

Celeborn está tão espantado quanto todos os outros quando das (prematuras) notícias da morte de Gandalf. Quando Celeborn diz, “E se isso fosse possível, talvez se pudesse dizer que Gandalf, no último momento, da sabedoria caiu na loucura, entrando sem necessidade nas entranhas de Moria”, muitos leitores reclamam. Ei, não fale assim do nosso Mago favorito!

Mas a reserva de Celeborn é um restabelecimento necessário da advertência anterior de Aragorn para Gandalf não entrar em Moria. A credibilidade de Gandalf como um dos Sábios foi severamente enfraquecida. Ele não pôde encontrar um caminho através de seus obstáculos, e quando prosseguiram ele foi frustrado pelo Balrog (que o arrastou para dentro do abismo). Muitos assumem que o Balrog desejava o Um Anel. Bem, quando nos é dito que ele sabia sobre o Um Anel? Eu acho que Gandalf tinha um Balrog bem por fora de tudo em suas mãos, e isso era tudo. O velhinho arremessou parte da montanha jovialmente no Balrog quando ele não sabia mais o que fazer. Eu tenho certeza de que Balrogs, sendo criaturas tão inflamadas como são, não apreciam ter montanhas arremessadas neles.

O meu ponto é que geralmente os leitores focam demais sua leitura na linha principal da história. Tolkien introduziu um conflito pessoal para Gandalf portanto ele poderia ser removido convenientemente da ação. A queda de Gandalf em Moria é, na verdade, um artifício literário não diferente dos seus negócios urgentes no sul distante em O Hobbit. Ele é um personagem muito poderoso para o autor mantê-lo com a Sociedade do Anel, então ele deve partir.

Mas se livrar de Gandalf diminui a sua credibilidade. Então, alguém que não tenha parecido fraco e tolo deve restabelecer a credibilidade de Gandalf. Agora podemos todos concordar que Galadriel restabelece a reputação de Gandalf ao refutar que contestem as suas decisões. Alguém deve arriscar sua própria credibilidade para que possa colocar Galadriel em posição de defender Gandalf.

A expressão de dúvida não soaria bem vindo de Aragorn ou outro membro da Sociedade. Nem seria apropriado a um dos elfos inferiores no salão que dissessem, “Ei, o Gandalf deu mole dessa vez, chefe!”. A inquietação do leitor acerca da sabedoria e propriedade das escolhas de Gandalf devem vir de alguém com autoridade. E Celeborn tem a autoridade apropriada.

Ao sacrificar (temporariamente) a credibilidade de Celeborn, Tolkien oferece ao leitor um caminho diferente de um enigma literário. Ninguém deve criticar o pobre e velho Gandalf por fazer o que parece uma decisão estúpida. Afinal de contas, a Comitiva poderia apenas ter cruzado o Passo Alto por sobre Valfenda, que era protegido pelos Beornings, e viajado para o sul por terras ameaçadas por orcs nos Vales do Anduin, certo? Ou eles poderiam ter ido através do Desfiladeiro de Rohan quando todos os Orcs estivessem cochilando durante o dia. A parte mais fraca da história é a afirmação de Tolkien (através de Gandalf) que o único caminho para sair de Eriador (e Azevim) com o Anel é ir por Moria até Lórien.

Gandalf, é claro, queria alcançar Lórien. Ele sabia que encontraria ajuda lá. Então, ir através do Desfiladeiro de Rohan não faz sentido, realmente. Foi bom que Gandalf não tenha desperdiçado tempo discutindo com Boromir sobre a validade de se levar o Anel para Gondor. De fato, aprecia-se um pouco mais a sabedoria de Gandalf quando se considera o fato de ele ter desconsiderado este argumento.

É claro, outra reclamação contra Celeborn diz respeito à sua má liderança vez ou outra. As pessoas encaram sua retração em dar as boas-vindas a Gimli (e a todos que vão com Gimli – que são a Comitiva como um todo) como um sinal de estupidez. Deve-se questionar o argumento por trás deste julgamento, entretanto. Afinal de contas, Celeborn reconhece que ele (e, presumivelmente, Galadriel) suspeitavam há muito de que algo poderoso e terrível habitava em Moria. Agora seu maior medo foi confirmado, e ele conclui que seu reino não é ameaçado apenas por Dol Guldur, mas também pelo poder em Moria. E não é apenas um poder qualquer, é um Balrog.

Muitos olham para O Silmarillion e pensam, “Ah, Elfos matavam balrogs a torto e a direito. Então por que Celeborn deveria se preocupar acerca de um só?” Bem, O Silmarillion é enganador. O único conto onde Elfos matam Balrogs é a história sobre Tuor e a queda de Gondolin, e Christopher Tolkien teve que sintetizar um texto muito antigo, um conto pré-Silmarillion de O Livro dos Contos Perdidos para criar aquele capítulo. Na realidade, caso J.R.R. Tolkien houvesse vivido tempo suficiente para reescrever a história para O Silmarillion, ele provavelmente não teria tantos Balrogs sendo assassinados. Ele teria mantido o sacrifício heróico de Glorfindel e seria desse jeito.

Celeborn havia de se preocupar em como manter Lothlórien no mapa tanto tempo quanto fosse possível. A desvantagem de Lothlórien para uma longa sobrevivência era, na verdade, muito grande. Então por que deveria uma pessoa sábia (especialmente um dos Sábios Elfos, que, de qualquer modo, têm suas próprias preocupações) não ficar preocupada nem um pouco ao saber que um balrog mora logo ao lado? O coração de Galadriel deve ter batido mais forte também, e ela foi cautelosa ao ter que expressar sua preocupação com o descontrole de Celeborn.

De fato, a retratação de Celeborn mostrou que ele e Galadriel nem sempre tinham as mesmas opiniões. Suas rápidas desculpas a Gimli, que seguiram a breve repreensão de Galadriel, demonstram uma força de caráter que ela não via em si mesma.Celeborn foi capaz de mudar de direção mesmo no meio da tempestade. Ele não foi compelido pelas suas escolhas do passado em direção a um curso dos acontecimentos. Galadriel, diferentemente, havia mantido a si mesma na Terra-Média por suas próprias escolhas (ou assim somos levados a crer em The Road Goes Ever On). O temperamento de Celeborn é flexível a aberto à persuasão.

Além disso, ele também tem conhecimentos sobre o mundo em geral. Quando Aragorn revela que ele não havia decidido por qual caminho a Comitiva deveria prosseguir, Celeborn lhe poupa um bom tempo dando a Comitiva alguns barcos. Os barcos permitem que Aragorn deixe as opções em aberto. Mas também acelera o grupo no sentido das inevitáves escolhas que eles devem tomar. Aragorn não compreende isso, ele não tem plena noção de quão rápido eles prosseguem pelo rio.

Quando Celeborn convoca a Comitiva uma última vez antes que partam, ele lhes diz: “Pois chegamos agora ao limiar do nosso destino. Aqui, aqueles que desejarem podem esperar a aproximação da hora em que ou os caminhos do mundo se abrirão de novo, ou os convocaremos para a luta suprema de Lórien.” Há um senso de urgência em suas palavras que é enterrado abaixo da dúvida de Aragorn e da habilidade de Celeborn ao lidar com essa dúvida. Enquanto Celeborn evita fazer escolhas pela Comitiva, ele sabiamente limita as suas escolhas.

Vamos supor que a Sociedade estivesse para deixar Lothlórien à pé. Para onde eles iriam? Celeborn os avisa para evitarem a floresta da Fangorn. Então eles poderiam tanto retornar para as montanhas quanto tentar passar por Isengard, ou eles deveriam seguir o rio — talvez ainda tentar cruzar o rio pelas passagens mais rasas. A doação dos botes guia a Comitiva para longe das montanhas e de cruzar o rio muito cedo. O cruzamento será feito no sul como uma conseqüência da decisão de Celeborn.

É claro, considerando-se como os acontecimentos sucederam-se em Fangorn, é natural que perguntemos por que Celeborn deveria alertar a Comitiva para que ficassem longe da floresta. Merry e Pippin, depois de encontrarem Barbárvore pessoalmente, perguntam a ele por que Celeborn os havia advertido para não entrar na floresta. De sua parte, Barbárvore responde, “Hm, ele disse, é? E eu poderia ter dito o mesmo, se vocês estivessem indo daqui para lá.”. Ele reconhece que tanto a sua terra quanto a de Celeborn são muito perigosas para estrangeiros. Gandalf sugere algo similar, também, quando conta a Aragorn, Legolas, e Gimli que eles próprios são perigosos cada qual da sua maneira, exatamente como Barbárvore e os Ents são perigosos.

A advertência de Celeborn é suficiente para provocar a precaução dos viajantes. Ele não pode preveni-los de entrar na Floresta da Fangorn, e nem compeli-los de fazê-lo. Mas em face das dúvidas de Boromir acerca dos velhos contos de avós, Celeborn relembra ao viajantes que “talvez as velhas avós guardem na memória relatos sobre coisas que alguma vez foram úteis para o conhecimento dos sábios.”

Sua observação é curiosamente refletida no próprio epitáfio de Tolkien ao legado de Celeborn, dado no Prólogo: “mas não há registros do dia em que ele finalmente se dirigiu aos Portos Cinzentos, e com ele partiu a última memória dos Dias Antigos da Terra-Média.” Quando Celeborn o Sábio deixa a Terra-Média, muito do que um dia foi útil para o conhecimento dos sábios se foi com ele. De certa forma, Tolkien estava advertindo o leitor a não ter Celeborn como certo. Ele era uma mina de ouro de experiência e conhecimento, e por conseguinte sabedoria. Ele era muito perspicaz and poderia prever a corrente do rio tão bem quanto qualquer outro.

Portanto, quando diz “Adeus” a Aragorn, Celeborn permite que ele possa logo afastar-se de Galadriel. Ele estava inclinado a aceitar a separação, sabedor de que ao tempo certo ele iria segui-la através do Mar. Muitos freqüentemente questionam por que Celeborn deveria permitir que Galadriel o deixasse daquela forma. Mas eu penso que Tolkien explicou bem as razões de Celeborn em várias oportunidades.

Primeiramente, era provável que Galadriel precisasse que alguma cura. Ela não apenas foi uma Portadora de um dos Anéis de Poder, e por essa razão sujeita ao poder do Um Anel (ainda que indiretamente), como também era a última sobrevivente dos líderes da rebelião dos Noldor na Primeira Era. Galadriel havia se fatigado por seu exílio de longos anos, cujo regresso ela havia expressado na canção que ela compôs para a Comitiva ao deixar Lothlórien. Ela necessitava de um tempo até estar novamente em empatia com os Valar. Ela e Elrond eram ainda os últimos Portadores dos Anéis Élficos, e os Anéis de Poder eram originalmente um segundo ato da rebelião élfica. Galadriel, assim, deveria absolver a si mesma da falta em dois casos de “Queda”. Nenhum outro elfo precisou desse tipo de conciliação.

A separação de Celeborn seria ainda a oportunidade de Celeborn de dizer adeus a Terra-Média. Ele estava emocionalmente envolvido com a terra de modo que Galadriel não poderia estar. Agora, há quem acredite fervorosamente que Celeborn veio de Aman exatamente como Galadriel. De qualquer forma, no último ano de sua vida, Tolkien pessoalmente fez sua decisão. Mas à época, Tolkien se esqueceu de muito do que havia escrito, que teria sido útil para si. Em Contos Inacabados, Christopher nos diz:

“Assim, de início, é certo que a concepção mais antiga era que Galadriel atravessou sozinha as montanhas desde Beleriand para o leste, antes do fim da Primeira Era, e encontrou Celeborn em sua própria terra de Lórien. Isso está explicitamente afirmado em escritos inéditos, e a mesma idéia forma a base das palavras de Galadriel a Frodo, em A Sociedade do Anel, II, VII, onde ela diz de Celeborn que Ele mora no Oeste desde os dias da aurora, e eu moro com ele há anos sem conta; pois, antes da queda de Nargothrond ou Gondolin, atravessei as montanhas, e juntos, através de eras do do mundo, combatemos a longa derrota. É muito provável que Celeborn nessa concepção fosse um elfo nandorin (isto é, um dos elfos que se recusaram a atravessar as Montanhas da Névoa na Grande Viagem a partir de Cuiviénen).”

Lembra-se agora como eu disse acima que Tolkien não poderia parecer ter se decidido sobre Celeborn? A origem Nandorin para Celeborn não durou muito. Eventualmente, ele se tornou um príncipe sindarin — parente de Thingol Capa-cinzenta — que à época morava em Doriath, e mais tarde em Harlindon como senhor dos Sindar sob Gil-Galad. A transição foi feita em alguma época dentre os anos de 1956 a 1965, e provavelmente ocorreu em 1965, quando Tolkien modificou O Senhor dos Anéis para estipular a tradição Sindarin.

As mudanças feitas por Tolkien em 1965 para a segunda edição de O Senhor dos Anéis devem ser aceitas como canônicas, sobrepondo-se ao que está na Primeira Edição (assim como a Segunda Edição de O Hobbit trouxe aquela história para a Terra-Média). Celeborn é dessa forma indiscutivelmente um elfo Sindarin. mas as palavras de Galadriel de fato não fazem sentido, a não ser que se invente uma quase incrível história para Celeborn, ou interprete livremente sua fala para Frodo como uma passagem incorreta ou implicando que tanto ela quando Celeborn viajaram pelas Montanhas juntos.

Há, é claro, algum embasamento para a interpretação mais tardia. Nas histórias não publicadas de Galadriel e Celeborn, eles adentram Eriador juntos. Mas assim as coisas se tornam complicadas. Tolkien deixa o papel de Celeborn em Eregion duvidoso, e ele não está certo de quando Celeborn foi para Lórien, ou como, ou por que. Ao tratarmos de Celeborn como um elfo de Doriath, Tolkien cria uma razão para fazê-lo não-amigável aos Anões. Celeborn recorda-se do ataque a Doriath e da morte de Thingol (agora seu parente próximo).

Celeborn não é exatamente hostil aos Anões em O Senhor dos Anéis. Mas se aceitarmos a visão de Tolkien de que Celeborn nãoé afeiçoado a eles, então a antiga lei que Celeborn deixa de lado para permitir que Gimli caminhe livremente em Lothlórien faz sentido. Amroth, rei original de Lothlórien, parece ter sido amigável aos Anões. Ele e seu pai foram indubitavelmente aliados dos Anões Barbas-longas de Khazad-dum. Mas quando os Anões despertaram o Balrog e fugiram, eles despertaram um grande medo no povo de Amroth. Seu reino teve efetivamente um fim no ano de 1981.

Galadriel e Celeborn então se estabeleceram em Lothlórien para restabelecer alguma estabilidade ao reino élfico. Como Lothlórien teve sua população muito diminuída devido ao êxodo, eles iniciaram novas políticas. Lothlórien cessou praticamente todas as relações com outros povos. Eles até mesmo interromperam a comunicação com o reino de Thranduil no norte da Floresta das Trevas. Eles permaneceram amigáveis apenas com Valfenda, possivelmente Cirdan nos Portos, e talvez com os senhores de Gondor. Observando que os anões causaram o êxodo, Celeborn deve ter decidido que que eles não deveriam mais ser considerados bem-vindos em Lothlórien com a intenção de evitar contato com seja lá o que tenham despertado.

Então, sua decisão de deixar de lado a velha lei quando a Comitiva chega é um outro sinal da natureza flexível de Celeborn. Os tempos haviam mudado, e as necessidades de seu povo eram diferente daquelas de há mil anos. Lothlórien havia indubitavelmente crescido em população, e era óbvio naquele momento que os Anões não eram uma ameaça a Lothlórien. Celeborn poderia, por conseqüencia, parecer perigoso. Sua dúvida repentina, após descobrir que um Balrog morava em Moria, é compreensível. Ele havia então mudado o status quo. Gimli deve ser o primeiro de muitos Anões a retornar para Lothlórien depois de um milênio de isolamento. As novas sobre o Balrog eram uma infeliz confirmação da decisão que Celeborn havia então feito.

Desta forma foi para seu crédito que Celeborn pôde considerar verdadeiramente a advertência de Galadriel sobre sua retratação às boas-vindas de Gimli. Celeborn era sábio o suficiente para compreender que as suas considerações não eram as únicas no mundo. Galadriel é tida como tendo sido favorável aos Anões devido a sua origem Noldorin. Seu povo havia sido mais amistoso aos Anões do que o de Celeborn (tanto os Nandor quandos os Sindar). Mas Celeborn era resoluto e guiado pela necessidade. O Balrog tinha saído da toca, por assim dizer. Barrar Gimli e todos que foram com ele não teria realmente nenhum propósito. Celeborn deveria se focar nas suas necessidades presentes, e as palavras de Galadriel o relembraram de que aquelas necessidades eram tão importantes porque os Elfos e seus aliados estavam empenhados em preservar tudo que eles apreciavam.

Galadriel o mostrou bem sutilmente como encontrar uma empatia com Gimli: “Se nosso povo estivesse exilado longe de Lothlórien há muito tempo, quem dos Galadhrim, até mesmo Celeborn o Sábio, passando perto daqui, não desejaria rever seu antigo lar, mesmo que tivesse se tornado um covil de dragões?”

Essas são palavras muito proféticas, e Celeborn deve ter refletido sobre a sua relevância para o futuro. O dia em que Galadriel havia de deixá-lo estava chegando, e eventualmente seguiria-se que ele mesmo deveria deixar a Terra-Média um dia. Saudades do passado e pesar eram sentimentos que Elfos, todos os Elfos, podiam entender e aceitar.Galadriel falou a Celeborn, Elfo para Elfo, e fez a ele exatamente o tipo de questionamento que um Elfo iria concordar. Ele entendeu o que ela estava dizendo sem hesitação, e suas palavras conciliadoras mostram que ele estava desejoso de aceitar a amizade com Gimli.

De todos os senhores élficos mencionados no livro, Celeborn parece ser o menos aturdido pelos acontecimentos. Gildor Inglorion contem-se de ajudar Frodo diretamente contra os Nazgûl. Ele provavelmente teme que desafiando abertamente os agentes de Sauron irá atrair muita atenção. Ele se comunica com Bombadil, Aragorn, e Valfenda a favor de Frodo — e também muitos freqüentemente questionam o que o bondoso Gildor pode fazer por Frodo. Celeborn socorre Frodo prontamente, quase com avidez. Ele vive na fronteira e sabe o que está em jogo.

Mas Gildor era provavelmente também um dos senhores de Eregion, ou ta,vez um senhor de Lindon, que havia se tornado profundamente enredado na política dos Anéis. Os Noldor, ainda que com toda sua sabedoria e amizade com outras raças, cometeram um grande pecado ao criarem os Anéis de Poder e ao falharem em descobrir todos os fatos acerca dos Anéis. Celeborn, ainda que provavelmente sabendo que Galadriel tem um Anel de Poder, era praticamente desprovido de culpa. Enquanto que Elrond foi quase paralisado de medo do Um Anel, Celeborn fez suas escolhas rapida e facilmente. Sim, nós vamos ajudar o Portador do Anel. Sim, nós vamos enfrentar Dol Guldur e qualquer outra ameaça de Sauron.

Se a única dúvida que Celeborn manifesta relaciona-se às suas calorosas boas-vindas a Gimli, uma dúvida tão facilmente posta de lado pelo encorajamento de Galadriel, então ele é seguramente o elfo de vontade mais forte no livro. Mesmo Legolas parece um pouco fraco às vezes. Elrond, com toda sua sabedoria, aparentemente não podia imaginar o que fazer com Frodo. É apenas após a oferta de levar o Anel a Mordor que Elrond junta todas as indicações e conclui que é essa a missão apontada para o Hobbit. Celeborn, por outro lado, enxergando como todos estão pensando no quefazer em seguida, imagina um caminho para ajudá-los a prosseguir em direção a seus objetivos enquanto deixa as opções deles em aberto.

É evidente, há uma outra passagem quando Celeborn parece um pouco incerto. E isso foi para com o final do livro, quando ele e Galadriel estão conversando com Barbárvore. “Eu não acho que iremos nos encontrar novamente”, Barbárvore lhes diz. “Eu não sei, Maisvelho.”, Celeborn diz respeitosamente. Na verdade, eu penso que é um pouco mais tato pessoal do que respeito. É assim, Celeborn provavelmente entende que eles três nunca estarão mais juntos. Muitos apontam a resposta florida de Galadriel “nos prados de salgueiros de Tasarinan” como ligando a lacuna entre estupidez e a física de Einstein.

para mim, o grande significado dessa passagem é que o leitor está sendo preparado para ainda outro vislumbre de uma dessas histórias que Tolkien nunca encontrou tempo para contar. Se você voltar e reler a observação de Barbárvore a Merry e Pippin acerca da floresta de Fangorn e Lothlórien, e então olhar para sua doce despedida deles em “Muitas Despedidas”, torna-se óbvio que Celeborn, Barbárvore e Galadriel têm uma história. O que teriam eles feito em eras passadas? Quantas vezes eles teriam estado juntos?

Quando Tolkien traduziu a saudação em élfico de Barbárvore a Celeborn e Galadriel (A vinimar vanimalion nostari!), ele escreveu: “O cumprimento de Barbárvore a Celeborn e Galadriel significava Ó belos, pais de belas crianças.” Enquanto é de conhecimento comum que Celebrian era filha de Celeborn e Galadriel, não é tão sabido que – por um instante – Tolkien considerou Amroth seu filho, também. Amroth, eventualmente, se tornou filho de Amdir (ou Malgalad), mas as palavras de Barbárvore implicam que ele sabia (e amava) os filhos de Galadriel e Celeborn. Evidentemente, havia mais na conexão Barbárvore/Galadriel/Celeborn do que Tolkien revelara em O Senhor dos Anéis.

E o mesmo é verdade sobre Celeborn pessoalmente. Nós vemos apenas breves cenas das muitas facetas de Celeborn. Ele não é um diamante bruto tanto quanto uma jóia brilhante que jaz meio-enterrada entre outras jóias, algumas mais brilhantes ou menos cobertas. Como o próprio Tolkien poderia ter dito, não há recordação do conto completo de Celeborn, mas seu conto estava selado no coração de Tolkien, e quando Tolkien por fim viu os Portos Cinzentos de sua própria maneira, com ele se foram as últimas memórias não reveladas dos dias de Celeborn na Terra-Média.