Quem tem medo dos puristas maus?

Já fui ver “A Sociedade do Anel” e parece-me que as pessoas devem ir ver o filme para formarem a sua própria opinião. Puristas Tolkianos ficarão provavelmente ofendidos. Eu acho que eles se meteram a si próprios nesse buraco. Não há salvação no filme para os fans intransigentes que temeram a saída do filme e que gostariam que este nunca tivesse sido produzido. No entanto, há puristas Tolkianos que, tal como eu, farão o seu melhor para separar o que sentem pela obra de Tolkien, das suas reacções ao trabalho de Peter Jackson. Tenho de dizer que não é fácil ver o filme sem pensar “Ah, aquilo era diferente no livro”. Mas de cada vez que me sinto reagir dessa maneira, relembro-me que vim ver o filme e não condená-lo ou criticá-lo. Criticar cada pequena coisa não vai fazer bem a ninguém neste momento. O filme é um facto consumado e quer queiramos quer não temos de viver com ele e continuar com as nossas vidas. De qualquer maneira, o filme de As Duas Torres vai sair daqui a um ano e os angustiosos vão precisar de um pouco de tempo antes de se começarem a preparar para lastimar a chegada desse filme.
 

Não posso dizer que este tenha sido o melhor filme do ano para mim. Certamente também não foi o pior. Acho que se fizesse uma lista de todas as falhas do filme, o balanço inclinar-se-ia a favor do final cheio de acção do filme, isto é, acho que o que é bom ultrapassa muito o que é mau na escala da Justiça purista. Peter Jackson gosta de contar uma história muito visível, e ao fazê-lo tem tendência para exagerar certos elementos. Ele traz ao écran uma intensidade que não existe nas paletas de outros realizadores. Claro que cada realizador pinta um quadro diferente. E a única coisa que nós podemos fazer é interpretar esta interpretação de acordo com os nossos desejos e experiências pessoais.

Ainda assim, o que tornou o filme mais memorável para mim foi o facto de ter partilhado a noite com mais de 1000 pessoas em dois auditórios (e tive mesmo a oportunidade de comunicar com pessoas em ambas as salas). A audiência com quem vi o filme esteve muito sossegada durante a maior parte da história. Acho que as pessoas tinham medo de falar para não perderem nenhum pormenor. E até nem é que se possa fechar os olhos e perder o fio à história. O filme era muito previsível nalgumas partes. Laboriosamente previsível. Mas a história desenvolve-se tão rapidamente que quando o genérico final apareceu acho que toda a gente olhou para o relógio e disse “Não podem ter passado três horas!”

Cinematicamente, se há uma falha no filme tem a ver com o ritmo. As cenas são tão rápidas e os personagens varrem a paisagem tão rapidamente que quando param numa cena por mais de um minuto a mudança de ritmo parece um pouco discordante. Mas, a não ser que fizessem seis filmes de três horas cada ou cortassem ainda mais da história, não vejo como fazer muito mais com a matéria prima.

Eu estava suficientemente confortável com a viagem dos ‘Portadores do anel’ (Ringbearers) que parei e procurei nas paredes de Moria alguns daqueles detalhes que nós somos supostos saber que estão lá, mas não conseguimos ver. Vi alguma coisa interessante? Bem, havia muitas runas esculpidas nas paredes. Por quem? Não faço ideia. A camara não as focou durante tempo suficiente para eu as ver bem.

Tem sido dito que Peter Jackson trata a câmara como uma pessoa diferente em cada cena. Esta é a sua maneira de dirigir a atenção das pessoas para a história. Usa ângulos diferentes, acção-inversa, truques digitais e vistas panorâmicas da paisagem, concentrando-se na acção quando as coisas aquecem. Se alguém receia que o filme se afaste do livro de Tolkien, então podem ficar tranquilos que isso acontece. Se esperam que o filme dê vida à Terra-média, então podem ficar tranquilos que isso também acontece. É a Terra-média de Tolkien? Claro que não. É a de Peter Jackson. Mas é uma visão magnifíca e que vale bem a pena absorver pelo menos uma ou duas vezes.

Devo dizer que gostei do trabalho dos actores. Algum do diálogo não estava à sua altura. Tinha a impressão de que eles queriam dizer mais e não podiam – tinham que continuar com a cena e era mesmo assim que tinha de ser. Por isso a sua interpretação tornava-se mais intensa.

Sou um grande fan da Liv Tyler o que faz com que a minha opinião não seja aqui ‘imparcial’. No entanto, acho que ela se saiu melhor do que muita gente esperava ou temia. Houve alguns risos quando apareceram as legendas (das falas em élvico). Estavam colocadas tão em baixo no écran que a metade inferior das palavras desapareceu. Mas eu gostei de ver Liv e vai ser bom vê-la mais nestes filmes. Arwen não tem de ser uma ‘fada-do-lar imaculada’. Quem insiste que ela só pode ser isso claramente não presta atenção ao que Tolkien escreveu sobre ela e sobre a sua família.

Ian Holm é um Bilbo Bolseiro perfeito. É um actor consagrado e compreendeu perfeitamente a sua personagem. Mas o que me impressionou mais sobre Bilbo foi o facto de que quase todo “O Hobbit” foi sumariado em várias cenas ao longo do filme. Não quero dizer que representaram a história. Só que a maior parte dos acontecimentos da história anterior foi mencionada ou referida. Gostei disso. O Bilbo de Ian Holm é encantador, confiante, confortável e completamente credível. Não consigo pensar em nada que quizesse feito de maneira diferente.

No entanto, a melhor actuação é a de Ian McKellen. Não sei se ele tem suficiente material de qualidade Oscariana no filme para ganhar mesmo um Oscar, mas ele devia ter uma nomeação. Não é porque ele é Gandalf, ou porque alguém pensa que ele devia ser Gandalf. É porque quando McKellen diz certas falas, ele fá-las soar duma forma tão realista e convincente. Não interessa se a personagem que as fala é Gandalf. O que interessa é que elas não parecem ser ditas por um qualquer personagem de filme.

Gandalf absorveu algumas falas de outras personagens devido à compressão. Mas são frases muitas vezes extraídas directamente de Tolkien. O que me surpreendeu, no entanto, foi como fiquei satisfeito com a inclusão fora de contexto de várias dessas falas. E quero dizer que algum do diálogo foi tão mudado do sítio em que aparece na história literária que qualquer purista o nota imediatamente. Mas não acho que esteja fora do lugar. Uma das alterações mais bem sucedidas é na cena em que Gandalf diz a Frodo a famosa frase sobre não dever ser tão rápido a dar um julgamento de morte. É uma cena incr&i
acute;vel. Toda a emoção e rectidão moral que eu imaginei em Gandalf quando ele admoesta Frodo sobre o seu julgamento de Gollum no livro está mesmo ali expressa no écran. E não é porque Peter Jackson e os outros guionistas encontrassem uma maneira inteligente de usar o texto num sítio diferente do da história literária. É porque Ian McKellen compreende a monumentalidade do que está a dizer. Ele sente-se clara e obviamente confortável a dizê-lo.

Na minha experiência, um dos comentários mais frequentes nestes últimos quatro anos era sobre a necessária compressão da história do livro. Eu e muitos outros puristas perguntávamo-nos se o intervalo de 17 anos entre a partida de Bilbo do Shire e a conversa fatídica de Frodo com Gandalf seria comprimido para poucos meses. Para ser sincero, não sei dizer de verdade. A história corre tão depressa que parece que não se passou tempo nenhum, mas quando se vê Bilbo em Valfenda eu acho que parece que se passaram 17 anos. Só não apareceu nenhum título no écran a dizer “17 anos depois”. Peter poderá ter pensado ou não em incluir nalgum momento um título “Alguns meses depois”, mas no fim preferiu deixar a audiência decidir quanto tempo se passou. Contudo, quando Frodo acorda em Valfenda Gandalf diz-lhe que é 24 de Outubro. Verifiquem no livro, puristas. Essa é a data em que Frodo acorda em Valfenda.

Por outro lado, muito da história é alterado e não vejo razão porquê. De facto, certos aspectos específicos da personagem de Sauron foram alterados radicalmente e não percebo porquê. É bom? Não faço ideia. Não direi que seja mau. Mas é um abandono de Tolkien. No entanto, tentaram deixar Sauron em segundo plano, como muitos fans queriam. Eu acho que o deixaram aí de mais. Bem, ia ser sempre uma daquelas coisas em que se é “preso por ter gato e preso por não ter”. O papel de Sauron no filme não determina a história e ele aparece, na minha humilde opinião, melhor do que o típico vilão tenebroso e assustador de capa e espada e feitiçaria. Contudo, perdeu-se alguma da grandiosidade dos Dunedain de Tolkien. Mas muita gente tem argumentado que se se parar e der uma lição de história e cultura de cada vez que Tolkien o faz, então o filme nunca passaria de Bree. Bombadil é forte em história, por exemplo.

Acho que não fazem justiça a Aragorn. Viggo Mortensen tem um admirável trabalho a representar este personagem, mas, que chatice, precisava de mais tempo no écran. Passolargo aparece fraco e quase vazio no princípio da história e gradualmente ganha o respeito do leitor e dos Hobbits. O filme simplesmente atira-o para a situação e, pum-pum, Passolargo é Aragorn, o herdeiro há muito tempo perdido de Isildur. Claro, a não ser que produzissem seis filmes de três horas, não tenho a certeza de que pudessem ter ilustrado muito da transição de Passolargo para Aragorn sem cortar o resto do filme. Mas, de novo, os guionistas foram inteligentes e alteraram a história de Passolargo, adiando alguns dos seus pontos chave para o segundo ou talvez para o terceiro filme. Puristas intransigentes vão pôr-se aos berros mas, se o resto das pessoas os ignorar, tornar-se-ão rapidamente irrelevantes.

Por outro lado, dão-nos um espectáculo quase completo dos Cavaleiros Negros que Tolkien mostra no livro. Não me lembro de nada de errado com estas cenas e não vale a pena ser picuínhas com o design dos fatos, dado que cada pessoa os conceberia de maneira diferente. Mas a ênfase colocada nos Cavaleiros Negros na primeira parte do filme e o tratamento leve de Aragorn na segunda parte deixam-me com uma sensação de algum desequilíbrio.

A Sociedade do Anel conta duas histórias. Uma é a de um Hobbit chamado Frodo que é apanhado nas malhas de uma responsabilidade assustadora. A outra história é a de um homem misterioso que se oferece para ajudar Frodo e que faz a sua própria travessia incerta enquanto Frodo caminha cada vez mais próximo de Mordor. O Aragorn de Tolkien não precisa de ser enfiado à força em nenhuma comitiva. Ele tem o seu lugar próprio e definido no mundo e ao leitor só são cuidadosamente dadas pistas suficientes sobre o lugar de Aragorn para perceber que, quando Gandalf se auto-sacrifica, Aragorn é capaz de assumir a liderança da comitiva, mas que essa liderança não dá garantias. Notei a falta dessa dúvida. Viggo é bem capaz de representar um Aragorn inseguro, e fá-lo de facto, mas a incerteza foi transferida para uma parte diferente da história. Fiquei surpreendido com isso. Para ser sincero, tive algumas surpresas no filme. E a única maneira de criar essas surpresas com sucesso era alterando a história. Pode-se apreciar o momento em que se reconhece que um personagem diz uma fala originária de outra parte da história, ou pode-se lamentar as alterações ao original de Tolkien. Dizer se as trocas do diálogo foram necessárias dum ponto de vista cinemático ou responsáveis é uma discussão que pode esperar.

A Sociedade do Anel cria o ambiente para o próximo filme da maneira clássica e habitual: levanta questões sobre o que irá acontecer a algumas das personagens. Como o Aragorn de Peter Jackson não segue o Aragorn de J.R.R. Tolkien à letra, a audiência fica a pensar se, e quando, as peças do puzzle de Aragorn vão encaixar no puzzle de Peter Jackson. Possivelmente, esta foi a decisão mais acertada que podiam ter tomado. Frodo é quase idêntico ao Frodo literário. Elijah Wood tem a tarefa ingrata de ir alimentando as expectativas da audiência. A única parte em que ele poderá falhar a sua missão é em representar um Frodo Hobbit de 50 anos no corpo dum jovem Hobbit. É difícil de dizer. O filme tem um ritmo tão rápido que não se pode julgar suficientemente bem a perplexidade de Frodo quando este vê as coisas irem de mal a pior para ele. Por isso não há nenhuma maneira em que o primeiro filme da trilogia possa agarrar perguntas da audiência sobre Frodo.

Orlando Bloom não é totalmente utilizado no primeiro filme, o que parece justo. A relação Legolas-Gimli não começa mesmo a funcionar até ao meio da história. Mas há um admirável momento clássico quando Legolas reage ao Gimli de John Rhys-Davies de uma tal maneira que a audiência tem de se rir, tanto em apreciação do gesto subtil, como em antecipação do que de certeza vai surgir mais tarde. Fiquei contente que não tivessem abusado de efeitos especiais para mostrar o enorme talento de Legolas com o arco e flechas. Ele é rápido, ele é mortífero e ele é credível. Não é costume ver isso num Elvo dos filmes. Pelo menos em nenhum que eu me lembre. A minha única decepção com Legolas é quando é um outro personagem que diz uma das suas falas muito importantes. Não percebo porque o fizera
m, mas isso não me estragou o filme. De facto até ajudou um pouco na construção do outro personagem. Mas não pude evitar pensar que os guionistas falharam nesse aspecto importante sobre Legolas, aspecto esse que até é referido por Tolkien numa das suas cartas.

John Rhys-Davies foi sempre um dos meus actores favoritos. É um prazer vê-lo no écran e, depois de saber as atribulações que ele sofreu durante as filmagens, só o posso respeitar ainda mais pela sua belíssima actuação. Eu não acho que na mente de Tolkien Gimli fosse um personagem tão exagerado, mas ele tem a feliz, ou infeliz, responsabilidade de explicar alguns dos antecedentes da história. Ele corresponde bem a várias das expectativas dos fans, o que irá acalmar alguns ânimos mais exaltados, acho eu, mas poderá deitar ainda mais achas na fogueira dos sacrilégios dos puristas.

Merry e Pippin não têm papeis importantes na maior parte do filme, mas a sua cena final é muito comovedora. Dominic Monaghan and Billy Boyd trabalham bem juntos e estou ansioso de ver a sua história em As Duas Torres.

O Boromir de Sean Bean, tal como o Aragorn de Viggo, fica amputado devido à compressão. Eu acho que neste caso a equipa de guionistas percebeu muito bem que tinham de encontrar um compromisso e, para compensar, mudaram de novo a história para darem a Sean uma oportunidade de expressar as emoções e prioridades contraditórias de Boromir numa cena muito bem escrita. De facto, em duas cenas muito bem escritas. Mas, mesmo assim, ele precisava de ainda mais tempo no écran para criar Boromir da forma que seria de exigir. No entanto, a audiência ficou verdadeiramente comovida quando chegou o momento de glória de Boromir. A cena podia ser mais fiel ao livro, e em minha opinião seria então mais forte, mas Sean and Viggo pegaram no material que tinham e ‘deitaram a casa abaixo’. Não é habitual ver um cinema cheio de gente a aplaudir tal e qual como quando a equipa da casa marca um golo decisivo. De facto, nunca tinha visto uma reacção deste tipo num cinema. As pessoas gritavam, batiam palmas, aplaudiam. Peter, uma cena completamente conseguida. E mesmo que não contassem com as actuações fantásticas de Ian McKellen e Ian Holm para criar o que é basicamente a espinha dorsal do filme, eu acho que a maior parte do público vai sair do cinema com a cena entre Viggo e Sean tão bem marcada na memória que se vai sentir muito satisfeito.

Finalmente, tenho que renovar a minha queixa sobre o fumar. É completamente desnecessário. Não há justificação para pôr personagens a fumar nos filmes. Tolkien não sabia que os efeitos de fumar eram tão mortais e perigosos. Não é justo mostrar o uso do tabaco como um passatempo inofensivo à sua audiência e assim pôr em perigo vidas futuras. O filme é agradável, mas se o uso do tabaco foi incluído para satisfazer os desejos puristas das pessoas, isso não era necessário. Não acrescenta nada à história e a caracterização das personagens não depende disso. As pessoas morrem por usar produtos de tabaco. As pessoas sofrem danos físicos sérios por usar produtos de tabaco. Hollywood precisa de entender que tem uma responsabilidade para com as suas audiências para não glorificar comportamentos que se sabe serem fatais. Não vimos nenhuns Hobbits a beber veneno de ratos ou a porem-se à frente de trens de mercadorias. Nenhuns Hobbits apontaram armas às suas cabeças ou se fizeram ir pelos ares. Não precisamos de ver Hobbits, Feiticeiros ou Batedores (Rangers) a fumar. Sei que vou ser atacado e criticado por tomar esta posição forte. Mas eu sou apenas alguém que acha que a vida humana é mais importante do que uma tentativa pouco ajuízada de ser fiel a um livro quando se faz um filme.

Assim, espero que as pessoas apreciem o filme. Estou ansioso por o ir ver outra vez. Mas fico triste com o facto de terem tomado uma decisão tão irresponsável num assunto muitíssimo importante. Para o filme em geral, Peter, dou um “Bem feito”. Pelo tabaco, dou um “uma lástima”. Câncro não é para rir. Espero que essa doença nunca lhes faça perder um familiar. Eu já perdi de mais.

Tradução de Isabel Castro