E agora, cadê o resto do poema?

Poderia ser que, se não fosse por um manuscrito obscuro do século XIII, O Senhor Dos Anéis não fosse publicado. Muitas pessoas que expressaram mais que uma adoração passageira cedo ou tarde ouviram que Tolkien na verdade tinha desistido de publicar o Senhor dos Anéis através de George Allen & Unwin, e mandou o trabalho para Milton Waldman na Collins. MAs o que pode não ser conhecimento de todos é o fato que Tolkien voltou para Allen & Unwin por causa de um poema que ele escreveu anos atrás, usando-se da palavra "sigaldry".
 

 

E "sigaldry", na verdade, é uma palavra que Tolkien descobriu em um manuscrito da era de 1200. Eu não tenho idéia de sobre o que o manuscrito era, nem mesmo de que língua a palavra vem. É uma palavra perdida e esquecida, exceto pelo fato que Tolkien usou-o em poema relativamente pequeno, e que teve um profundo impacto na literatura moderna.

Tolkien compôs o poema entre o final dos anos 30 e o começo dos anos 40 e mandou para o grupo informal de literatura chamado The Inklings (algo como Os Fãs da Tinta). Em uma carta para Rayner Unwin, Tolkien especulou que o poema tomou vida própria daquele círculo de amigos, e não do Oxford Magazine, que publicou uma versão do trabalho em 9 de Novembro de 1933. O poema deve ter sido tão bom para, pelo menos, um dos membros do grupo que ele passou para mais alguém.

Tolkien esqueceu do poema à medida que outros projetos tomaram sua atenção. Ele escreveu O Hobbit, Mr. Bliss e outras coisinhas. Claro que ele continuou a escrever O Silmarillion e talvez o início do Senhor dos Anéis. Mas quando Tolkien perdeu a paciência com George Allen & Unwin, que reclamava de ter que publicar um livro tão grande no começo dos anos 50 (uma época de falta de papel, na qual o lançamento de um livro não trazia tanta renda), ele virou-se para Milton Waldman na Collins.

Agora, Collins ainda está por ai, assim como George Allen & Unwin. Eles fazem parte do conglomerado HarperCollins. Então, apesar de Tolkien ter retornado para o folde em 1952, Collins cresceu ao se mesclar com a Harper e comprando George Allen & Unwin. E apesar da história dos publicadores com os quais Tolkien lidou não ter nada a ver com este interessante poema, na verdade tem tudo a ver com ele.

Tolkien pode ter esquecido dele, mas a audiência oral não. Eles o passaram, de amigo para amigo, professor para estudante, pai para filho. Em tempo, o poema chegou às mãos de Rayner Unwin, e este escreveu para Tolkien sobre o poema. Allen & Unwin queriam, aparentemente, publicar um pouco da poesia tolkieniana. Eles estavam se dando bem com a segunda edição d´O Hobbit e tinham publicado também Farmer Giles of Ham e Smith of Wooton Major. Tolkien estava trazendo dinheito para a firma, então eles estavam motivados a explorar um pouco mais o fenômeno.

Tolkien, por sua parte, tinha sido contatado há pouco tempo por "uma senhorita desconhecida à mim fazendo uma pergunta similar" sobre o mesmo poema. Ele disse à Unwin que sua correspondente confessou "que um amigo tinha escrito recentemente, de memória, alguns versos que a tinha deixado feliz a ponto de tentar descobrir sua origem. Ele tinha pego de seu afilhado que os aprendeu em Washington, D.C. (!): mas nada se sabia sobre seu criador a não ser uma vaga idéia de que eram conectadas à universidades inglesas…"

Obviamente, a senhora encontrou a origem de seus misteriosos versos em JRR Tolkien, que reconheceu-os alegremente de sua autoria. "Devo dizer que fiquei interessado em me tornar ´folclore´." disse ele à Unwin. "Assim como foi intrigante que ele ganhasse uma versão oral — que sai da minha visão tradicional de tradição oral (de todas as maneiras): que as palavras ´difíceis´ eram bem preservadas, as palavras mais comuns, alteradas e a métrica perturbada".

A métrica de Tolkien era mais perturbante que perturbada. Ele a descreveu como "dependente em assonâncias ou quase-assonâncias trissilábicas, tão difícil que, exceto desta vez, eu nunca seria capaz de usá-la novamente — simplesmente saiu de uma vez só)."

Bem, Humphrey Carpenter, editor das Letters, não poderia deixar essa afirmação sair impune. Tolkien usou, ao que parece, as "assonâncias ou quase-assonâncias trissilábicas" novamente. E as usou em… "O Senhor dos Anéis".

Carpenter também nos diz sobre o uso da palavra "sigaldry" por Tolkien, e sua origem num manuscrito do século XIII, numa nota-final na carta para Rayner Unwin. A anedota vem de uma carta que Tolkien escreveu para Donald Swann em 1966. Swann, você talvez lembre, compôs a música para The Road Goes Ever On, publicado pela primeira vez em 1967.

Swann encontrou o poema em 1949, anos antes de Rayner saber dele. "Um amigo de escola me deu este poema," Swann escreveu no prólogo de The Road Goes Ever On. "Ele o encontrou… numa revista da escola". Swann não sabia quem era o autor, porque na cópia do poema do amigo estava escrito "Anônimo".

Swann, também, menciona a extensiva tradição oral do poema (descrito para ele por Tolkien). As pessoas continuavam a passá-lo, com muitas variações. E, ao que parece, o poema ainda é passado por aí hoje, por pessoas que talvez não tenham conhecimento de onde veio, ou qual sua relação com o livro mais popular do século XX.

Seria uma pena contar à eles o que eles encontraram, pois acabaríamos com uma tradição oral que até mesmo Tolkien teria pena de terminar. Então, se você encontrar uma cópia do poema sem o título ou origem, não diga nada. Apesar de parecer uma brecha da maneira no respeito que damos a um grande autor, pense nisso como ele fez: a prova viva de sua teoria sobre tradições orais (ou pelo menos o começo delas). Ver o pássaro ganhar asas é legal, mas observá-lo em vôo, enquanto plana por sobre as nuvens, totalmente alheio ao observador — isto é miraculoso.

Este poema não é especial apenas porque ele conseguiu algo quase impossível em uma era de leis de copyright e impérios mundiais editoriais; é especial porque deu à Rayner Unwin uma oportunidade de se aproximar de Tolkien, o qual ainda tinha uma relação de autor-publicador com sua empresa, e perguntar politamente do que houve com o Senhor dos Anéis e aquele outro trabalho, O Silmarillion.

Em tempo, Tolkien achou as palavras para responder à questão de Unwin e, apesar da carta lidar a maior parte do tempo com a tradição oral que ele semeou acidentalmente, foi uma resposta para um momento conturbado. Tolkien podia estar revoltado ou apenas envergonhado em sua falha de encontrar um publicador alternativo para O Senhor dos Anéis, por sua retirada da George A
llen & Unwin alguns anos antes.

Ao invés disso, Unwin empregou um pouco de cortesia verbal em Tolkien que o fez baixar barreiras e abrir portas que estavam há muito fechadas. Este obscuro poema, à propósito, foi influenciado por uma das histórias do Silmarillion, e conta de maneira leve a aventura de um dos menos trágicos heróis de Tolkien.

E ele foi reescrevê-lo para o Senhor dos Anéis, onde serve para acalmar o leitor para um estado sonolento de mente, similar ao de Frodo quando ouve a voz suave cantando a história do marinheiro.

Quando isto aconteceu, George Allen & Unwin percebeu que a falta de papel não era tão ruim, e Tolkien descobriu que tinha um público para partes de seu trabalho que ele nunca pensou. Como um favor para sua amada tia Jane Neave, ele publicou uma coleção de poemas em 1962 como As Aventuras de Tom Bombadil somente alguns anos antes dela passar de vez. Um desses poemas foi o que chamou a atenção de Donald Swann em 1949: "Errantry".

"Errantry" não apenas reviveu uma palavra perdida do século XIII, também revive as esperanças de ver O Senhor Dos Anéis (e talvez até o Silmarillion) publicado. Ele nunca esperou que suas negociações com publicadores viessem de inocentes pedidos de pessaos que estavam fascinados com o poema que pode ser descrito como um dos mais longos limmericks já compostos.

"Errantry" reconta a história de Earëndil o Marinheiro, que é algumas vezes citado como "O Marinheiro", e sem dúvida de muitas outras coisas. E ignorando alguns erros aqui e ali, ele sobreviveu sozinho mesmo sem ter sido em não menos de três coleções de trabalhos menores de Tolkien (que eu saiba). "Errantry", em fato, é o único poema que Tolkien escreveu publicado pelo menos 4 vezes (cinco se contar a canção de Bilbo em Valfenda, já que este trabalho é reconhecido por Christopher Tolkien e outros como um derivado de "Errantry").

O tolo marinheiro que casa com uma borboleta e desafia cavaleiros élficos demonstrou uma força literária e poética que poucos personagens de poesia musicada do século XX tem. Ele é, talvez, um dos mais memoráveis personagens de Tolkien, até mesmo porque o poema é difícil de pronunciar e possui palavras obscuras como "chalcedony" (calcedônia), "habergeon" e "sigaldry".

Claro que não acaba (e nem mesmo começa) aqui. "Sigaldry" aparece em mais outro trabalho tolkieniano, um poema extraordinariamente longo e de alto calibre. "A Balada de Leithian" é considerada por muitas pessoas (incluindo seu autor) a melhor obra de literatura composta por JRR Tolkien. Sua conexão com "Errantry" não está apenas no uso de palavras arcaicas. Os dois poemas nasceram num período em que Tolkien não tinha esperanças de ver seu trabalho publicado. Foi feito para seu próprio prazer, de sua família e amigos.

Mas "Errantry" é tão poderosa, e "A Balada de Leithian" é tão convincente que eles foram destinados para uma grandeza que, se os críticos do século XX conhecessem-os nos anos 30, teriam humilhado todas suas opiniões. Vocês podem imaginar as besteiras que foram sendo ditas ao longo dos anos numa tentativa de fabricar um passado inexistente.

Mas a Poesia provou ser maior que o desespero de Tolkien e as objeções da crítica. "Errantry" forjou caminhou que Tolkien nunca imaginou seguir, e inevitávelmente "A Balada de Leithian" seguiu atrás dele, pois esta tocava O Senhor Dos Anéis, também. O Senhor Dos Anéis oferece pedaços das duas histórias, e as coloca dentro de si mesmo, enriquecendo a Terra-Média e expandindo sua profundidade com detalhes que pre-existiram em sua própria história. Isto nunca teria acontecido se Tolkien não tivesse dividido sua ingenuidade trissilábica com alguns amigos numa noite há muito tempo atrás.

E agora, como o lendário comentador Paul Harvey diria, você conhece o resto do poema…


Tradução de Aarakocra