Uma História da Última Aliança de Elfos e Homens, Parte 2

A guerra real começou com o ataque à Minas Ithil, em 3429 S.E. [32]. Quando a cidade foi perdida, Isildur e sua família escaparam para Osgiliath [33]. De lá eles navegaram, deixando Anárion para defender o reino. Pode ser que nessa hora Isildur tenha parado em Edhellond, e passado para o norte em direção a Erech pra convocar o Rei das Montanhas para cumprir o juramento feito por seus predecessores; ou, pode ser que nesse momento Isildur tenha tomado o juramento do Rei, para ser cumprido posteriormente, quando o Oeste estivesse pronto para marchar contra Sauron [34].

Em todo caso, Anárion aparentemente não foi incomodado pelos homens das Ered Nimrais, embora ele possa ter prudentemente montado uma vigília contra uma traição do oeste. De qualquer forma, a presença do porto élfico em Edhellond pode ter sido um conforto para os Dúnedain. Além disso, visto que Sauron havia reunido seus aliados em Mordor, os exércitos de Herumor e Fuinur não atacaram vindos do sul. Eles devem ter passado para o norte e para Mordor através do Passo de Nargil [35], se não eles marcharam para o norte ao longo das Ephel Dúath para ajudar no ataque a Osgiliath.
Elendil e Gil-galad convocaram um conselho em 3430 S.E., onde a Aliança foi oficialmente criada [36]. O conselho deve ter sido uma grande reunião de senhores de Arnor, Gondor, Lindon, e outras terras. Além de Gil-galad e Elendil, podemos supor que Isildur e Círdan estavam presentes, e talvez também Elrond, Celeborn, Galadriel, Gildor Inglorion, e Glorfindel [37]. Os filhos de Isildur, Elendur, Aratan, e Ciryon podem ter estado presentes também; pelo menos Elendur provavelmente estava lá.

Podem ter havido também emissários dos Vales do Anduin (se não dos próprios Durin IV, Oropher, e Amdír). Possíveis emissários dos Elfos incluiriam Thranduil e Amroth. Entretanto, é possível que a Aliança originalmente incluísse apenas Lindon, Arnor, Gondor, e Imladris.

A Aliança só poderia ter um único propósito militar: marchar sobre Mordor e alcançar uma vitória completa e total contra Sauron. Eles sabiam que podiam derrotá-lo no campo de batalha, conforme isto fora realizado em mais de uma ocasião em guerras passadas. O verdadeiro problema deve ter sido sobre o que eles fariam uma vez rompidas as defesas de Sauron. Até quando ele poderia resistir à Aliança, e o que ele seria capaz de tramar contra seus inimigos enquanto sitiado em Barad-dûr? As forças de Sauron eram consideráveis, pois ele comandava não somente os Orcs e Trolls, mas também muitos homens, e seus principais servidores eram os Nazgûl.

Gil-galad e Círdan marcharam para o leste saindo de Lindon em 3431 [38]. Elendil já havia reunido seu exército em Amon Sûl e ele esperou lá pela hoste élfica [39]. Mas eles pararam em Imladris por três anos, aparentemente para treinar e equipar seus exércitos, e talvez também para persuadir Oropher, Amdír, e Durin a unirem-se à Aliança, se eles ainda não o tinham feito [40]. Naquela época, Sauron deve ter estabelecido um exército nas terras entre a Floresta Verde e Mordor [41]. Tal expansão certamente teria sido persuasiva para com Oropher. pode ser que nessa época Elendil tenha mandado um exército a Gondor para fortalecer Anárion [42].

Havia duas linhas de marcha prováveis para os exércitos da Aliança quando eles finalmente começaram a se mover em 3434. Pode ser que Oropher e Amdír tenham avançado pela costa oriental do Anduin, enquanto Gil-galad, Elendil, e Durin passavam a oeste de Lorinand em direção ao Parth Celebrant. Ou talvez Gil-galad e Elendil tenham atravessado o rio pela Men-I-Naugrim, usando o vau onde houve uma vez uma antiga ponte. Oropher pode ter precedido ou seguido eles em sua estrada para o sul, e Amdír e Durin teriam atravessado o Anduin com barcos (assim como Celeborn milhares de anos mais tarde quando ele atacou Dol Guldur).

Sauron provavelmente encontrou as forças da Aliança em algum lugar próximo aos Meandros mas, vendo que era superado em número, ele recuou, destruindo o antigo domínio Entesco ao norte das Emyn Muil (posteriormente conhecido como “As Terras Castanhas”) em uma tentativa de retardar o avanço da Aliança [43]. A retirada para Mordor deve ter sido rápida, ainda sim a Aliança foi capaz de surpreender o exército de Sauron em Dagorlad. É possível que a força de cavalaria de Lindon [44] tenha forçado o exército de Sauron a parar e se reorganizar no norte de Udûn, e que as duas forças se prepararam para a batalha ao curso de um ou mais dias que se seguiram.

Ainda que não tenhamos registro da Batalha de Dagorlad em si, podemos deduzir algumas prováveis formações. Gil-galad, sendo o líder da Aliança (ou, o mais provável, o mais velho dos quatro “iguais”), provavelmente comandava o centro. Visto que Elrond era o arauto de Gil-galad nesta campanha, é possível que os flancos de Gil-galad fossem comandados por Celeborn e Círdan (Glorfindel ou Gildor Inglorion podem ter comandado um flanco “Noldorin”).

Sabemos que no curso da batalha, o exército de Amdír foi isolado da hoste principal e feito em pedaços nos pântanos [45]. Entretanto, podemos supor que Oropher tomou a face direita do campo, com Amdír guardando o outro flanco. Deste modo, os Elfos Silvestres de “idéias próprias” estariam em uma posição para apoiar Gil-galad sem serem cercados pelas próprias forças dele. Elendil e Durin podem ter, então, permanecido na face esquerda (leste) do campo.

O que não podemos supor é se Anárion, com o exército de Gondor, estava presente na Batalha de Dagorlad. Teria Sauron dividido suas forças durante os anos anteriores para manter Anárion ocupado? Os únicos aliados possíveis que Anárion poderia ter convocado seriam os Elfos de Edhellond, dito serem na maioria de origem Nandorin ou Sindarin [46]. Eles não teriam constituído de modo algum uma grande força, e podem ter sido apenas um contingente do exército de Anárion.

As forças de Sauron teriam sido retiradas dos Orcs e Trolls, provavelmente vivendo em sua maioria em Mordor naquela época; os Orientais, talvez muito primitivos; os Haradrim, governados por Númenorianos Negros e incluindo um grande número dos mesmos; e quaisquer Homens que possam ter vivido em Mordor (se algum). Conta-se que uns poucos Anões também lutaram por ele, embora nada seja mencionado de suas moradas ou casas [47].

Se Anárion foi impedido de se unir imediatamente a Gil-galad por um exército no sul, Sauron pode ter tido somente alguns Haradrim na Batalha de Dagorlad. Assim, ele teria apenas dois exércitos: os Orientais e suas próprias forças de Mordor e Harad. O flanco esquerdo de Sauron pode ter sido a parte mais forte de seu exército, uma vez que ele foi capaz de impelir os Elfos Silvestres de Amdír, empurrando-os para os pântanos [48]. É possível que os Orientais não tenham ficado à direita de Sauron, mas talvez tenham ido contra o flanco oriental da hoste da Aliança (onde podem ter permanecido os exércitos de Arnor e Khazad-dûm). Esta estratégia teria ao menos dado uma oportunidade ao flanco esquerdo de esmagar os Elfos Silvestres enquanto o exército principal mantinha a atenção de Gil-galad no centro.

Gil-galad pode ter usado uma estratégia cautelosa, contendo-se de atacar a fileira de Sauron. Talvez Sauron tenha repelido Amdír com um ataque e talvez tenha ele mesmo lançado o ataque. A vantagem em lançar o ataque estaria na chance de Sauron de dividir a hoste élfica e destruir os Elfos Silvestres. Uma vez que Amdír e mais da metade de seu exército foram mortos, as forças de Sauron nesta área foram bastante efetivas. Mas visto que Sauron, por fim, abandonou o campo [49], seu flanco direito deve ter desmoronado sob o ataque dos outros exércitos da Aliança. É possível que a força inteira que combateu Amdír nos pântanos tenha sido abandonada por Sauron na retirada.

Embora não saibamos se partes do exército de Sauron sobreviveram à Batalha de Dagorlad, podemos estar certos de que suas forças foram muito diminuídas. Ele ainda aparentemente foi capaz de manter mais uma resistência fora de Barad-dûr, pois Oropher liderou um ataque prematuro a Mordor [50]. Os Elfos Silvestres podem ter se enfurecido com o massacre que ocorrera nos pântanos, e talvez Oropher tenha pensado que as forças de Sauron eram mais fracas do que realmente eram.

Mas embora os Elfos Silvestres tenham novamente sofrido graves perdas [51], Gil-galad e a Aliança penetraram em Mordor, empurrando Sauron de Udûn por todo o caminho de volta a Barad-dûr, onde eles começaram o cerco de sete anos. Nessa hora Anárion deve ter levado o exército de Gondor para Mordor, talvez passando através das Ephel Dúath para assegurar que Sauron não pudesse escapar para o sul.

A defesa de Sauron de Barad-dûr não foi passiva. Ele enviou muitos ataques [52]. A própria fortaleza usava armas de projéteis para infligir grandes perdas aos exércitos da Aliança, incluindo a tomada da vida de Anárion em 3440 [53].

A breve descrição de Elrond da última luta entre Sauron e seus adversários indica que Gil-galad fixara uma posição em Orodruin. Esta parece ser uma distância bem grande de Barad-dûr, mas pode ser que, durante os anos do cerco, Gil-galad tivesse que lidar com forças fora de Barad-dûr, nas terras ao leste e ao sul. Sendo assim, então Orodruin teria se tornado um excelente posto de comando, mas isto também significaria que os exércitos da Aliança (enfraquecidos pelas batalhas no norte) deviam estar pouco espalhados.

Desse modo, parece que, ou Sauron foi capaz de pegar Gil-galad de surpresa, ou ele liderou uma última e massiva investida contra Orodruin. Logo que Sauron alcançou as encostas da montanha de fogo, apenas Elendil permaneceu próximo o suficiente para ajudar diretamente o rei élfico, embora Elrond, Círdan, e Isildur estivessem mais próximos do que outros. Como Sauron conseguiu chegar tão perto de Gil-galad? Teria talvez o rei élfico oferecido a Sauron um desafio para um combate único (assim como seu avô Fingolfin desafiou Morgoth)? Sauron esperava matar Gil-galad e assim desencorajar seus inimigos?

No evento, Gil-galad caiu ante o ataque de Sauron e foi Elendil quem desferiu o golpe “mortal” que derrubou o Senhor do Escuro. Sauron, apesar disso, devia ter guardado força suficiente e presença de espírito para se projetar sobre Elendil, uma vez que fora o calor de seu corpo que matou o rei Dúnadan. Isildur então subiu a encosta para cortar o Anel da mão de Sauron, mas ele fez isso sabendo que o espírito de Sauron escaparia ou ele foi atraído imediatamente pelo poder do Anel?

O combate final deve ter resultado em uma perda de força de vontade quase completa entre os Orcs e Trolls sobreviventes [54]. Se quaisquer Orientais ou Haradrim continuaram a existir fora de Barad-dûr, eles ou fugiram ou lutaram até serem destruídos, como aconteceu com as forças de Sauron no final da Terceira Era [55]. Mas a própria Barad-dûr teve que ser demolida, e fortalezas foram construídas nas Ephel Dúath e em Udûn para manter uma vigilância sobre [56].

A maioria dos líderes originais da Aliança nunca viu o final que eles se esforçaram tanto para atingir: Gil-galad, Elendil, Oropher, Amdír, e Anárion: todos pereceram. As forças élficas sofreram perdas terríveis, como aparentemente também sofreu o exército de Arnor. Nada é dito do que aconteceu com o exército e o rei de Khazad-dûm.

Um dos prováveis benefícios da guerra para os Povos Livres foi a diminuição de Númenorianos Negros que, embora não destruídos, foram incapazes de estabelecer um grande reino como Gondor ou Arnor (a menos que este fosse Umbar, que eventualmente foi conquistado). Mas um dos grandes custos da guerra teria sido a virtual ruína da antiga civilização Beleriândica em Lindon. O povo de Círdan incorporou o restante do povo de Gil-galad em Mithlond e alguns podem ter se assentado em ou próximo a Imladris, mas a maioria dos sobreviventes abandonou a Terra-média [57].

Arnor emergiu da luta enormemente enfraquecido. Gondor, entretanto, cresceu em poder daquela época em diante, e por mais de 1600 anos manteve uma vigília sobre Mordor contra o eventual retorno de Sauron. A Aliança falhou em atingir uma vitória permanente sobre Sauron, em grande parte porque no final Isildur falhou em destruir o Um Anel quando teve a chance. E ainda assim, tivesse ele seguido o conselho de Círdan e Elrond, o que seria dos Elfos na Terra-média? A tolice de Isildur foi o triunfo da Aliança, pois os Eldar foram assim capazes de usar seus três Anéis de Poder remanescentes por mais de 3000 anos para melhorar seu mundo.

Tolkien escreveu que a Terceira Era era “os últimos anos dos Eldar. Viveram em paz por um longo tempo, controlando os Três Anéis, enquanto Sauron dormia e o Um Anel estava perdido; mas não tentaram nada de novo, vivendo de recordações do passado”. (O Retorno do Rei, p. 1148). Eles talvez não estabeleceram novos reinos, mas as canções élficas relatando as trágicas histórias de Nimrodel e a busca dos Ents pelas Entesposas mostram que os Elfos continuaram a prosperar e interagir com outros povos ao redor deles, muito após a guerra ter terminado.

Fim da parte 2.