Puristas versus fãs – uma falsa oposição

O assunto é velho, eu sei: boa parte dos meus colegas aqui na Valinor
já tratou, num momento ou noutro, da relação entre o livro “O Senhor
dos Anéis� e a adaptação milionária (em gastos e lucros) que Peter
Jackson fez deles. Mesmo assim, ainda sinto que algo falta ser dito a
esse respeito – algo que me pareceu estranhamente de fora da discussão
sobre tema parecido feita recentemente no Fórum Valinor (valeu, Gildor
e todo o pessoal, pela inspiração trazida pela conversa de vocês, que
eu observei sem participar).
 
 
 
Quase todo mundo parece resumir a controvérsia a
uma disputa entre puristas (pelo jeito, minoria das minorias a esta
altura do campeonato) e fãs dos filmes. Os primeiros argumentam que
nenhuma mudança é, em princípio, admissível; os outros, que a
necessidade de criar uma boa obra cinematográfica exige essas mudanças,
que seguir a letra do livro resultaria simplesmente num filme chato de
galochas – que, em resumo, filme é filme, livro é livro. A mudança na
adaptação cinematográfica não altera o texto original que os puristas
entesouram tanto. A mensagem, dizem eles, é curtir os filmes enquanto
filmes (e os filmes, disso eles não parecem ter dúvidas, são
realizações históricas – “moviemaking history�, como a produtora New
Line gosta de dizer).

Há quase dois anos atrás, quando os filmes começaram a aparecer, eu não
saberia de que lado me colocar. Provavelmente entre os aprovadores
(quase) sem reservas de Peter Jackson, pelo simples impacto de ver o
que a minha imaginação sonhara por tanto tempo finalmente em carne,
osso e celulóide. Agora, contudo, depois de rever “A Sociedade do Anel�
e “As Duas Torres� repetidas vezes, o distanciamento necessário para
julgar as coisas direito chegou.

Pois bem, qual o meu veredicto? Eu diria que a coisa é ligeiramente
mais complicada que a mera necessidade de adaptar uma história
verborrágica (no melhor sentido da palavra; cá entre nós, não dá para
negar que o fluxo de palavras, sentido primário desse adjetivo, é dos
grandes no livro) para um meio visual. O problema também é esse, mas
está longe de ser só esse. A impressão que eu tenho é que, apesar de
todos os seus juramentos sucessivos de fidelidade a Tolkien, os
criadores da trilogia cinematográfica simplesmente não confiaram na
qualidade da história do jeito que ela é; ou, talvez, acharam que o
público não seria capaz de captar as sutilezas, as alusões, os
subentendidos que fazem do livro uma experiência única.

Um exemplo entre muitos: lembro-me de uma entrevista com Bernard Hill
(Théoden) no qual o repórter questionava a diferença entre o rei
resoluto do livro, que depois de ser curado por Gandalf luta com todas
as forças contra Saruman, e o Théoden que quer evitar a guerra a
qualquer custo. Hill resmungou, meio irritado, algo do tipo: “Ora, o
personagem precisa ter um arco de desenvolvimento no filme, mostrar
algum tipo de crescimento pessoal�. O mesmo foi dito pela roteirista
Philippa Boyens a respeito de Faramir.

O mesmo acontece com o desespero para aumentar a participação de Arwen
a qualquer custo: “O público precisa de um personagem feminino com o
qual se identificar”; a patética insinuação de que Sauron e Aragorn vão
lutar no mano a mano (“O vilão precisa ser algo mais do que um Olho
flamejante�); o fato de que o Frodo parece ser muito mais frágil diante
do poder do Anel do que esperaríamos de alguém com a força interior
dele (“O Anel precisa ter seu caráter corruptor enfatizado�).

A pergunta que não quer calar é: por que diabos esse tal PRECISA? Esses
caras estão fazendo um filme ou só seguindo uma receita de bolo? Por
que eles precisam usar clichês tão gastos, tão falsos, para recontar
uma história que já provou ser capaz de arrebatar gente de todas as
culturas da Terra por 50 anos sem recorrer a esse tipo de apelação?
Além do mais, os pressupostos dos quais eles partem estão baseados numa
percepção totalmente equivocada do mundo real – como a idéia de que
pessoas verossímeis são só as contraditórias (conheço muita gente que é
constante nos seus valores e atitudes, graças a Deus) ou de que o
inimigo precisa ser visualizado (como se os maiores males dos quais a
gente tem de escapar não fossem quase sempre impessoais).

Não estou dizendo que os filmes são uma porcaria. Pelo contrário: são
belos, emocionantes, tocantes até. Choro toda vez que os vejo e nunca
tive vergonha de dizer isso. O que estou dizendo é que temos o direito
de exigir que eles fossem melhores – porque a história que eles
supostamente deveriam contar é infinitamente mais profunda,
infinitamente mais bela, ao menos para quem tem olhos para ver. Como
dizia um slogan de 1968, “seja razoável – exija o impossível�. Dava
para fazer? Estou convencido de que dava. A edição estendida (sim,
consegui assistir) está aí para mostrar que dava para ter feito melhor.
Se nos contentarmos apenas com o que nos tem sido oferecido, só
estaremos dando razão os críticos esnobes que acham que é tudo um
grande marketing para encher o rabo de Hollywood com dinheiro – e ponto
final.