Entrevista com Michael Drout

O norte-americano Michael Drout, 35, definitivamente é um sujeito sortudo. Afinal, pouca gente pode se dar ao luxo de tirar do esquecimento e publicar um livro inédito de J.R.R. Tolkien, ainda mais sobre o épico anglo-saxão Beowulf – provavelmente o assunto mais estudado pelo Professor durante sua longa vida, e que ajudou a inspirar diversos pontos-chave de O Senhor dos Anéis. Publicado no fim de 2002 graças à  permissão de Christopher Tolkien, o livro Beowulf and the Critics (Beowulf e os Críticos) reúne as ideias de Tolkien sobre a obra, além de duas traduções do poema – essas ainda sem data para sair.
Professor e pesquisador do Wheaton College, no Estado de Masachussets, Drout pertence a um número crescente de estudiosos que começam a valorizar a obra tolkieniana e a considerá-la digna de estudos literários sérios. Nesta entrevista exclusiva à Valinor, Drout fala sobre o difícil trabalho de editar um original tolkieniano, da importância da obra do Professor e de sua relação com
ela. Confira a íntegra da conversa (por e-mail) abaixo.Valinor – O sr. poderia contar como entrou em contato com a obra de Tolkien pela primeira vez? Foi uma decisão natural transformá-la em objeto de estudo acadêmico?

Michael Drout – Um pôster com o mapa da Terra-média ficava pendurado do lado do meu berço no quarto de visitas da casa da minha avó, portanto eu me interessei por Tolkien a minha vida inteira. Contudo, nunca pensei em trabalhar com Tolkien no meio acadêmico até ter as minhas primeiras aulas de inglês antigo durante a pós-graduação. Reconhecer tantas palavras dos capítulos de Rohan de O Senhor dos Anéis tornou o inglês antigo mais fácil de ler e me fez pensar que seria legal escrever um livro sobre essas conexões. Então, é claro, descobri que [o estudioso de anglo-saxão] Tom Shippey já tinha escrito o livro que eu queria escrever [The Road to Middle-earth].

Valinor - Como o sr. acabou achando os textos de Tolkien sobre Beowulf, e qual era o estado deles na época? Foi difícil convencer Christopher Tolkien a permitir a publicação deles?

Drout - Há dois projetos diferentes que às vezes são confundidos. Um deles é Beowulf and the Critics, o manuscrito que tem quase o tamanho de um livro do qual Tolkien tirou sua famosa palestra sobre Beowulf de 1936. Eu o encontrei na Bodleian Library [biblioteca da Universidade de Oxford, na Inglaterra] em 1996, quando pesquisava para a minha dissertação. Claro que ele estava catalogado, mas o tamanho, extensão e importância do manuscrito não tinham sido reconhecidos por ninguém, exceto por Christopher Tolkien, que o doou. Esse é o livro que foi publicado em dezembro de 2002. Christopher Tolkien me apoiou muito nesse projeto e simplesmente concordou com meu pedido de publicá-lo.

Comecei a trabalhar nas traduções de Beowulf feitas por Tolkien
imediatamente depois de terminar Beowulf and the Critics, mas esse
trabalho, por uma série de razões, teve de ser suspendido
indefinidamente. Não sei o que o futuro trará.

Valinor - O que o leitor que já conhece a palestra de 1936,
publicada no livro The Monsters and the Critics & Other Essays,
pode esperar encontrar no livro que o sr. editou?

Drout - Essa palestra é uma obra de retórica muito bem polida,
com muitas alusões e referências cuidadosamente ocultas. Em Beowulf and
the Critics, a argumentação de Tolkien é muito mais simples e clara, e
você pode ver como ele a descobre conforme vai escrevendo sobre um
grande número de temas. Ele também nos dá um resumo da história da
crítica sobre Beowulf, e discute alguns críticos específicos em
detalhe. Então, se você conhece bem a palestra de 1936, poderá vê-la
emergir de Critics, e terá um vislumbre de como a mente de Tolkien
funcionava.

Valinor - E quanto à tradução do poema feita por Tolkien?

Drout - Tolkien fez uma tradução completa em prosa, e uma
tradução parcial em verso. Você pode encontrar fragmentos da tradução
em verso em On Translating Beowulf, no apêndice de Beowulf and the
Critics, e em J.R.R. Tolkien: Artist and Illustrator, de Wayne Hammond
e Christina Scull. A tradução em verso tenta reproduzir a métrica
aliterativa do inglês antigo, e é bastante bem-sucedida, mas só cobre
as primeiras 600 linhas do poema.

Valinor - Quão determinante foi a influência de Beowulf e do
inglês antigo na obra de Tolkien? Às vezes parece que há uma influência
até na sintaxe dos textos…

Drout - Concordo que há uma conexão muito forte, muito profunda
entre o inglês antigo e a obra de Tolkien, e que essa conexão se
manifesta não só nos capítulos de Rohan, mas através de todos os
escritos de Tolkien. Por exemplo, na luta entre Fingon e Gothmog em O
Silmarillion, você tem uma descrição introdutória da luta que vai
acontecer e então a frase “aquele foi um encontro sombrio”, um torneio
estilístico que veio diretamente de Beowulf (that waes god cyning
[aquele foi um bom rei, em inglês antigo]). Quando usa uma palavra
arcaica, como “lave” [banhar] ou “smite” [atingir], é quase sempre uma
palavra arcaica do anglo-saxão.

Valinor - Desde a publicação de O Senhor dos Anéis, boa parte
dos críticos têm apontado o que chamam de “falso” arcaísmo de Tolkien,
algo que seria até brega no autor. O sr. acha que há alguma verdade
nisso ou os críticos simplesmente não conseguem perceber quando a
linguagem é verdadeiramente arcaica?

Drout - Concordo com Tom Shippey quando ele diz que a maioria
dos críticos não consegue diferenciar entre arcaísmo “verdadeiro” e
“falso”. Por exemplo, há quem critique o uso das palavras “eyot”
[ilhota] e “lave” [banhar]. Os críticos querem “ilha” e “lavar”. Mas há
uma distinção sutil e importante aí. A ilhota não é uma ilha; é uma
ilhota. E Aragorn realmente “banha” as folhas de athelas para liberar
mais do cheiro agradável. Eu acho que as pouquíssimas falhas de tom em
O Senhor dos Anéis vêm exatamente do oposto do arcaísmo. Por exemplo,
para mim a pior coisa em O Senhor dos Anéis é a raposa falante (ou
pensante consigo mesma) em A Sociedade do Anel. Não entendo porque não
foi editada. Mas não é arcaica de forma alguma.

Valinor - Qual o sr. diria que é o apelo de Tolkien para tantos leitores? E para o sr. pessoalmente?

Drout - A claridade de visão moral (se você concorda ou não com
a moralidade fundamental é outra história), a agudeza de pensamento e a
incrível consistência que Tolkien cria em seu mundo ficcional: todas
essas qualidades são ímpares em outros autores de fantasia ou mesmo em
qualquer outro tipo de literatura. Como muitos outros, eu simplesmente
amo a Terra-média.

Valinor - Apesar das muitas críticas, o sr. acha que Tolkien já se firmou na literatura inglesa?

Drout - Ainda não estamos totalmente estabelecidos, e pode haver
reveses, mas acho que a tendência para isso é bem inexorável. É bem
difícil rejeitar O Senhor dos Anéis de cara agora que o pós-modernismo
desafiou a importância de tantas outras obras. E a nova geração de
professores Рpessoas da minha idade Рsimplesmente ṇo tem o
sentimento anti-Tolkien da geração anterior. Mesmo quando encontro
pessoas que não leram Tolkien, elas não são hostis se têm menos de 40
anos. Acho que em mais uma geração acadêmica será bastante reconhecido
que Tolkien é importante e significativo e que precisa ser discutido,
gostando ou não do livro.

Valinor - O que acha de todo o hype em torno dos filmes?

Drout - Fico irritado com o lixo plástico e o foco nos atores
etc., e desgostei visceralmente das mudanças em As Duas Torres, mas os
filmes trouxeram um grupo enorme de novos leitores, e meus alunos
chegaram aos livros pelos filmes e adoraram os livros. Acho que os
filmes espalham as sementes por todo o lado e isso dá a elas a chance
de brotar em lugares inesperados.

Valinor - Mais alguma coisa que o sr. gostaria de acrescentar?

Drout - Sou casado e tenho uma filha de quase três anos. Ela
gosta de ouvir sobre os monstros em O Senhor dos Anéis e, mais
importante ainda, sobre como eles são derrotados.