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Carta #214

[Uma resposta para um leitor que mostrou uma aparente contradição em O Senhor dos Anéis: que no capítulo ´ Uma Festa Muito Esperada´ é declarado que ´Hobbits dão presentes a outras pessoas em seus próprios aniversários; contudo Gollum se refere ao Anel como seu ´presente de aniversário´, e conforme ele adquiriu-o, no capítulo ´ A Sombra do Passado´, indica que seu povo recebia presentes em seus aniversários. A carta do Sr. Nunn continuava: ´Então, uma das seguintes alternativas deve ser verdadeira: (1) o povo de Sméagol não era "do tipo hobbit " como sugerido por Gandalf (I pág. 62); (2) o costume Hobbit de dar presentes só fora desenvolvido à pouco tempo; (3) os costumes dos Stoors [o povo de Sméagol-Gollum] eram diferentes daqueles dos outros Hobbits; ou (5) [sic] há um erro no texto. Eu ficarei muito grato se você puder dispensar um tempo para empreender alguma pesquisa sobre esse assunto importante.]

[Não datado; provavelmente entre 1958 e 1959.]

Caro Sr. Nunn,

Eu não sou um modelo de erudição; mas no assunto da Terceira Era eu me considero um ´arquivo´ vivo. As falhas que possam aparecer em meu registro são, eu acredito, em nenhum caso devido a erros, que são declarações do que não é verdade, mas omissões e falta de informação, principalmente devido à necessidade de compressão, e na tentativa de introduzir informação ´en passant´ no curso de narrativa que naturalmente tendeu a omitir muitas coisas que não afetam diretamente o conto.

No assunto de costumes de aniversário e as discrepâncias aparentes que você nota, podemos então, eu penso, descartar suas alternativas (1) e (5). Você omite (4).

Com respeito a (1) Gandalf certamente diz no princípio ´ eu suponho´ (pág. 62); mas isso está de acordo com seu caráter e sabedoria. Em idioma mais moderno teria dito ele ´eu deduzo´, se referindo a assuntos que não estavam sujeitos a sua observação direta, mas em qual ele tinha formado uma conclusão baseada em estudo. (Você observará no Apêndice B que os Magos não vieram logo antes do primeiro aparecimento de Hobbits em qualquer registro, sendo que nesse tempo eles já eram divididos em três classes marcantes). Mas ele de fato não duvidou de sua conclusão ´ é na verdade tudo igual, etc. ´ (pág. 63).

Sua alternativa (2) seria possível; mas desde que o registro diz na pág. 35 Hobbits (o qual ele usa qualquer que seja sua origem, como o nome para a raça inteira), e não os Hobbits do Condado, ou povo do Condado, deve-se supor que ele queira dizer que o costume de dar presentes era de alguma forma comum a todas as variedades, inclusive Stoors. Mas desde que sua alternativa (3) seja naturalmente verdade, nós poderíamos esperar enraizado mesmo assim um costume a ser exibido de modo bastante diferente em classes diferentes. Com a reemigração do Stoors de volta para Wilderland em 1356 da T.E., todo o contato entre este grupo retrógrado e os antepassados do povo do Condado estava rompido. Mais de 1100 anos passaram-se antes do Incidente de Déagol-Sméagol (c. 2463). À época da Festa em 3001 da T.E., quando os costumes do povo do Condado são superficialmente reportados à medida que eles afetam a história, o intervalo de tempo era quase 1650 anos.

Todos os Hobbits eram lentos no que diz respeito a mudanças, mas os reemigrantes Stoors estavam regressando para uma vida mais selvagem e mais primitiva de pequenas e decrescentes[1] comunidades; enquanto o povo do Condado nos 1400 anos de sua ocupação tinham desenvolvido uma vida social mais organizada e elaborada, na qual a importância da relação familiar para seus sentimentos e costumes foram fortalecidas através de tradições detalhadas, escritas e orais.

Embora eu tenha omitido qualquer dissertação sobre esse curioso mas característico fato de seu comportamento, os fatos relativos ao Condado poderiam ser mostrados em alguns detalhes. Os Stoors do beira-rio devem, naturalmente, permanecer mais conjeturais.

´Aniversários´ tinham uma importância social considerável. Uma pessoa que celebra seu aniversário era chamada um ribadyan (que pode ser traduzido de acordo com o sistema descrito como um aniversariante). Os costumes ligados aos aniversários tinham, embora profundamente arraigados, tornado-se regulamentados por uma etiqueta bastante rígida; e em conseqüência estavam em muitos casos reduzidos a formalidades: como realmente sugerido por ´ não muito caros como regra´ (pág. 35); e especialmente através da pág. 46 11. 20-26. Com respeito a presentes: em seu aniversário o ´ aniversariante´ tanto dava como recebia presentes; mas os processos eram diferentes em origem, função, e etiqueta. A recepção foi omitida pelo narrador (uma vez que não dizia respeito a Festa) mas era de fato o costume mais velho, e conseqüentemente o mais formal. (Isso diz respeito ao incidente de Sméagol-Déagol, mas o narrador, sendo obrigado reduzir isto para seus elementos mais significantes, e a colocá-lo na boca de Gandalf que fala a um hobbit, naturalmente não fez nenhum comentário sobre um costume que o hobbit (e nós) deveria considerar natural em relação a aniversários.)

Recebimento de presentes: este era um ritual antigo ligado com parentesco. Era originalmente um reconhecimento da ligação do aniversariante de uma família ou clã, e uma comemoração de sua ´incorporação´ formal. [2] Nenhum presente era dado por pai ou mãe para suas crianças em seus (das crianças) aniversários (exclua nos casos raros de adoção); mas era de se supor que o chefe renomado da família desse algo, ao menos como ´lembrança´.

Dando presentes: era uma questão pessoal, não limitada a parentesco.

Era uma forma de ´agradecimento´, e tomada como um reconhecimento de serviços, benefícios, e amizade demostrada, especialmente no último ano decorrido.

Pode ser observado que Hobbits, assim que eles se tornassem ´faunts´ (isso é falantes e andantes: normalmente acontecia no terceiro aniversário deles) davam presentes aos seus pais. Supõe-se que estes eram ´confeccionados´ pelo doador (ou seja: achado, cultivado, ou feito pelo ´aniversariante´), começando em crianças pequenas com buquês de flores selvagens. Esta pode ter sido a origem dos presentes de ´agradecimento´ de distribuição mais ampla, e a razão por que permaneceu ´correto´ no Condado tanto para presentes sendo coisas pertencentes ou produzidas pelo doador. Exemplares de produtos de seus jardins ou artesanato tornaram-se os ´presentes dados´ habituais, especialmente entre os Hobbits mais pobres.

Na etiqueta de Condado, à data da Festa, a ´expectativa de recebimento´ era limitada a primos em segundo grau ou parentes mais próximos, e para os residentes dentro de 12 milhas[3]. Até mesmo aos amigos íntimos (se não aparentados) não era ´esperado´ dar, embora pudesse ocorrer. Os limites das residência do Condado era obviamente uma conseqüencia bastante recente da separação gradual das comunidades e famílias aparentadas, e dispersão de parentes, sob condições a muito tempo organizadas. O presente de aniversário recebido(nenhuma dúvida quanto ser uma relíquia dos costumes de pequenas famílias antigas) deve ser entregue pessoalmente, exatamente na véspera do Dia, ou mais tardar antes do ‘nuncheon’ no Dia do Aniversário. Eles eram recebidos reservadamente pelo ´aniversariante´; e era muito impróprio exibi-los separadamente ou em conjunto – justamente para evitar algum embaraço, como pode acontecer em nossas exibições de presentes de casamento (que teria horrorizado o povo do Condado)[4]. O doador poderia dar o presente em uma bolsa e demonstrar sua afeição sem incorrer em comentário público ou ofender (qualquer um) qualquer outro além do recebedor. Mas o costume não exigia presentes caros, e um Hobbit ficaria mais prontamente lisonjeado e encantado por um presente inesperadamente ´bom´ ou desejável que ofendido por uma habitual lembrança de boa-fé da família.

Um sinal disto pode ser visto no relato de Sméagol e Déagol – modificado pelos caráteres individuais destes seres bastante infelizes. Déagol, evidentemente um parente (como sem dúvida eram todos os membros da pequena comunidade), já tinha dado seu presente habitual à Sméagol, embora eles provavelmente tenham partido em sua expedição de manhã bem cedo. Sendo uma alma pequena e má, ele invejou-o. Sméagol, sendo pior e mais avarento, tentou usar o ´aniversário´ como uma desculpa para um ato de tirania. ´Porque eu o quero´ era a declaração franca de sua principal intenção. Mas ele também sugeriu que o presente de Déagol era uma lembrança pobre e insuficiente: em conseqüência Déagol replicou que pelo contrário, aquilo era mais que ele poderia dispor.

A distribuição de presentes pelo ´aniversariante´ – deixando de lado o caso de presentes para pais[5], mencionado acima – sendo pessoal e uma forma de agradecimento, variava muito mais em forma em tempos e lugares diferentes, e de acordo com a idade e importância do ´aniversariante´. O mestre e mestra de uma casa ou toca, no Condado, daria presentes a todos sob seu teto, ou a seu serviço, e normalmente também a vizinhos próximos. E eles poderiam estender a lista como bem entendessem, lembrando-se de quaisquer favores especiais durante o último ano. Era entendido que a oferta de presentes não era firmada por regra; embora a recusa em dar um presente habitual (como por exemplo para uma criança, um criado, ou um vizinho próximo de porta) era tomada como uma repreensão e marca de desgosto severo. Adolescentes e hóspedes (que não têm casa própria) não tinham tais obrigações como os donos da casa; mas eles normalmente davam presentes de acordo com sua posses e afetos. ´Não muito caro como regra´ – aplicados à todos os presentes. Bilbo era tanto nisto como em outros assuntos uma pessoa excepcional, e a Festa dele era até mesmo uma absurdo de generosidade para um Hobbit rico. Mas uma das cerimônias mais comuns de aniversário era dar uma ´festa´ – na noite do Dia do Aniversário. Para todos aqueles convidados eram dados presentes pelo anfitrião, que eram esperados, como parte do entretenimento (sendo secundária a comida oferecida). Mas eles não trouxeram presentes com eles. O povo do Condado teria pensado que seria muito impróprio. Se os convidados já não tivessem dado um presente (sendo um daqueles exigido pelo parentesco), era tarde demais. Para outros convidados seria uma coisa ´não feita´ – pareceria como se estivessem pagando a festa ou comparando festa e presente, e isso era muito embaraçoso. Às vezes, no caso de um amigo muito querido estar impossibilitado vir a uma festa (por causa de distância ou outras causas) um convite simbólico seria enviado com um presente. Neste caso o presente era sempre algo que comer ou beber, com propósito de ser uma amostra do bufê da festa.

Eu acho que será notado que todos os detalhes registrados como ´fatos´ ajustam-se a um quadro definido de sentimento e costume, entretanto este quadro não é esboçado até mesmo na forma incompleta desta nota. Poderia, claro, ter aparecido no Prólogo: por exemplo no meio da pág. 12. Mas embora eu tenha cortado uma grande parte, aquele Prólogo ainda é muito longo e sobrecarregou até mesmo a esses críticos que permitam que tenha algum uso, e não faz (como alguns) avisos aos leitores para esquecê-lo ou saltá-lo.

Incompleto como é, esta nota pode parecer a você muito muito longa; e embora você tenha pedido, é mais do que você perguntou. Mas eu não vejo como eu poderia ter respondido suas questões mais brevemente e de um modo que pudesse satisfazer os elogios que você me faz em ter um interesse em Hobbits suficiente para preencher a lacuna na informação fornecida.

Porém, o fornecimento de informação sempre abre vistas adicionais; e você verá indubitavelmente que o breve relato de ´presentes´ ainda abre mais assuntos antropológicos implícitos para tais termos como parentesco, família, clã, e assim por diante. Eu aventuro-me a somar uma nota adicional neste ponto, para que não, considerando o texto a luz de minha resposta, você deva senti-se inclinado a investigar mais adiante sobre a ´avó de Sméagol´, a qual Gandalf descreve como uma regente (de uma família de reputação alta, grande e mais rica que a maioria, pág. 62) e até mesmo a chama de uma ´ matriarca´ (pág. 66).

Até onde eu sei Hobbits eram universalmente monógamo (realmente eles muito raramente casavam uma segunda vez, até mesmo se esposa ou marido morressem muito jovens); e eu deveria dizer que seus arranjos familiares eram ´patrilinear´ em lugar de patriarcal. Quer dizer, seus nomes de família descenderam em uma linha-masculina (as mulheres adotavam os nomes dos maridos); também o chefe titular da família normalmente era o macho mais velho. No caso de grandes famílias poderosas (como o Tûks), ainda coerente até mesmo quando eles tinham ficado muito numerosos, e mais o que nós poderíamos chamar clãs, o chefe era corretamente o macho mais velho que era considerado a linha mais direta da descendência. Mas o governo de uma ´ família´, como uma unidade real : o ´lar´, não era uma monarquia (exceto por acidente). Era um ´ duarquia´ no qual o mestre e mestra tinham posições sociais iguais, talvez com funções diferentes. A qualquer um era assegurado o direito de ser o representante formal do outro no caso de ausência (inclusive morte). Não havia ´ viúvas dotadas´. Se o mestre morresse primeiro, o lugar dele era tomado pela esposa, e isto incluiu (se ele tivesse assegurada aquela posição) a chefia titular de uma grande família ou clã. Este título não descenderia ao filho, ou a outro herdeiro, enquanto ela vivesse, a menos que ela abdicasse voluntariamente[6]. Poderia, então, acontecer em várias circunstâncias que uma mulher de idade avançada de caráter forte permanecesse ´chefe do família´, até que ela tivesse os netos crescidos.

Laura Bolseiro (neé Grubb) permaneceu ´chefe´ da família dos ´Bolseiros de Hobbiton´, até seus 102 anos. Como ela era 7 anos mais jovem que seu marido(que morreu com a idade de 93 em RC-1300), ela manteve esta posição durante 16 anos, até RC-1316; e seu filho Bungo não se tornou ´chefe´, até ele ter 70, dez anos antes que ele morresse com a prematura idade de 80. Bilbo não o sucedeu até a morte de sua mãe Tûk, Beladona, em 1334, quando ele tinha 44.

A liderança dos Bolseiros então, devido aos eventos estranhos, entra em dúvida. Otho Sacola-Bolseiros era o herdeiro a este título – totalmente aparte de questões de propriedade que teriam surgido se seu primo Bilbo tivesse morrido intestado; mas depois do fiasco legal de 1342 (quando Bilbo retornou vivo depois de ser ´dado como morto´) ninguém ousou presumir a morte dele novamente. Otho morreu em 1412, seu filho Lotho foi assassinado em 1419, e sua esposa Lobelia morreu em 1420. Quando Mestre Samwise informou a ‘partida para o Mar´ de Bilbo (e Frodo) em 1421, ainda sim foi impossível presumir morte; e quando Mestre Samwise tornou-se Prefeito em 1427, uma regra foi feita que: ´se qualquer habitante do Condado for para o Mar na presença de uma testemunha fidedigna, com a intenção expressa de não retornar, ou em circunstâncias que impliquem tal intenção claramente, ele ou ela será julgado para que seja renunciado todos os títulos de direito ou propriedades previamente assegurados ou ocupados, e o herdeiro ou os herdeiros deles entrarão em seguida de posse destes títulos, direitos ou propriedades, como é ordenado por costume estabelecido, ou pelo testamento e disposição do morto, como o caso possa requerer. Presumivelmente o título de ´chefe´ passou então aos descendentes de Ponto Bolseiro – provavelmente Ponto (II).

Um caso famoso, também, era o de Lalia a Grande (ou menos cortesmente a Gorda). Fortinbras II, uma vez chefe dos Tûks e Thain, casou com Lalia dos Clayhangers em 1314, quando ele tinha 36 e ela 31. Ele morreu em 1380 aos 102 anos, mas ela viveu longamente após ele, tendo um fim triste em 1402 com a idade de 119. Assim ela comandou os Tûks e Os Grandes Smials durante 22 anos, um grande e memorável, se não universalmente amado, ´matriarcado´. Ela não estava na famosa Festa (RC-1401), foi assim aconselhada não só por seu grande tamanho e imobilidade, como também pela idade. O filho dela, Ferumbras, não teve nenhuma esposa, sendo incapaz (como alegava) de achar qualquer um que quisesse ocupar apartamentos nos Grandes Smials, sob o comando de Lalia. Lalia, em seus últimos e mais gordos anos, tinha o costume de ser levada na cadeira de rodas para a Grande Porta, para tomar ar nas manhãs agradáveis. Na primavera de RC 1402, sua desajeitada assistente deixou a pesada cadeira correr além da soleira, derrubando Lalia degraus abaixo, indo parar no jardim. Assim terminou um reinado e vida que poderiam bem ter rivalizado com o do Grande Tûk.

Eram grandes os rumores que a assistente era Pérola (a irmã de Pippin), entretanto os Tûks tentaram manter o assunto dentro da família. Na celebração de ascensão de Ferumbras o desgosto e pesar da família foram expressos formalmente pela exclusão de Pérola da cerimônia e banquete; mas não escapou a notícia que mais tarde (depois de um intervalo decente) ela apareceu com um colar esplêndido com as jóias que lhe davam seu nome, que a muito havia pertencido aos bens dos Thains.

Costumes eram diferentes em casos onde o ´chefe´ morria sem deixar nenhum filho. Na família Tûk, desde que o comando era também ligado ao título e (originalmente militar) cargo de Thain[7], a descendência era estritamente através da linhagem masculina. Em outras grandes famílias o comando poderia passar por uma filha do finado direto ao neto primogênito deste (independente da idade da filha). Este último costume era habitual em famílias de origem mais recente, sem registros antigos ou mansões ancestrais. Em tais casos o herdeiro (se ele aceitasse o título de cortesia) toma o nome de família de sua mãe – embora ele freqüentemente tomasse o da família de seu pai também (colocado em segundo). Este era o caso com Otho Sacola-Bolseiro. O comando nominal dos Sacolas tinha vindo através de sua mãe Camélia. Era sua ambição, bastante absurda, alcançar a distinção rara de ser ´chefe´ de duas famílias (ele provavelmente teria se chamado então Bolseiro-Sacola-Bolseiro): uma situação que explicará sua exasperação com as aventuras e desaparecimentos de Bilbo, totalmente aparte de qualquer perda de propriedade envolvida na adoção de Frodo.

Eu acredito que foi um ponto discutível na tradição Hobbit (o qual a decisão do Prefeito Samwise preveniu de ser discutida neste caso de particular) se ´adoção´ por um ´chefe´ sem filhos poderiam afetar a descendência do comando. Era concordado que a adoção de um membro de uma família diferente não pudesse afetar o comando, sendo uma questão de sangue e parentesco; mas havia uma opinião que adoção de um parente íntimo do mesmo nome[8] antes que ele fosse de maior idade, o habilitava a ter todos os privilégios de um filho. Esta opinião (mantida por Bilbo) foi contestada naturalmente por Otho.

Não há nenhuma razão para supor que os Stoors de Wilderland tivessem desenvolvido um sistema estritamente ´matriarcal´, chamando corretamente. Nenhuma pista de tal coisa foi achada entre o elemento Stoor em Eastfarthing e Buckland, entretanto eles mantinham várias diferenças de costumes e leis. O uso de Gandalf (ou propriamente seu relato e o uso do tradutor) da palavra ´matriarca´ não era ´antropológico´, mas significava simplesmente uma mulher que de fato comandou o clã. Nenhuma dúvida que ela tinha sobrevivido ao marido e era uma mulher de caráter dominante.

É provável que, no recessivo e decadente território Stoor de Wilderland, a tribo de mulheres (como freqüentemente será observado em tais condições) tendeu a preservar melhor o caráter físico e mental do passado, e assim tornou-se de importância especial. Mas não é (eu penso) suposto que qualquer mudança fundamental em seus costumes matrimoniais tenham acontecido, ou qualquer tipo de sociedade matriarcal ou poliândrica desenvolveu-se (embora isto pudesse explicar a ausência de qualquer referência ao pai de Sméagol-Gollum). ´Monogamia´ era praticada universalmente neste período no Oeste, e outros sistemas eram vistos com repugnância, como coisas só feitas ´sob a Sombra´.

Eu na verdade comecei esta carta quase quatro meses atrás; mas nunca foi terminada. Logo após ter recebido seus questionamentos minha esposa, que tinha estado doente a maior parte de 1958, celebrou o retorno da saúde com uma queda no jardim, esmagando seu braço esquerdo tão gravemente que ela ainda está incapacitada e engessada. Assim 1958 foi um ano quase completamente frustrado, e com outros problemas, e a iminência de minha aposentadoria que envolve muitas reestruturações, eu não tive nenhum tempo para trabalhar no Silmarillion. Muito embora eu deseje fazê-lo (e, felizmente, Allen e Unwin também parecem querer o mesmo).

[O rascunho termina aqui.]

Notas

[1] entre 2463 e o começo dos questionamentos especiais de Gandalf com relação ao Anel (quase 500 anos depois) eles aparecem ter desaparecido completamente(exceto, é claro, para Sméagol); ou ter fugido da sombra de Dol Guldur.

[2] Antigamente isto aconteceu aparentemente, logo após nascimento, pelo anúncio do nome da criança para a família agregada, ou em comunidades maiores e mais elaboradas para o ´chefe´ titular´ do clã ou família. Veja nota no fim.

[3] Conseqüentemente a expressão Hobbit ´um primo de doze-milhas´ para uma pessoa excluída pela lei, e não é reconhecida nenhuma obrigação além de sua interpretação precisa: aquele que não daria à você nenhum presente se a distância do degrau de entrada dele para seu não estivesse abaixo de 12 milhas (de acordo com a própria medida dele).

[4] Nenhum presente era dado no ou durante a celebração de casamentos de Hobbits, exceto flores (casamentos eram realizados principalmente na Primavera ou nas manhãs do Verão). Ajuda em mobiliar uma casa (se o casal fosse ter uma em separado, ou apartamentos privados em um Smial) era dada muito antes pelos pais de qualquer lado.

[5] Em comunidades mais primitivas, como aquelas ainda vivendo em clã-smials, o aniversariante também fazia um presente para o ´chefe da família´. Não há nenhuma menção dos presentes de Sméagol. Eu imagino que ele era um órfão; e não suponho que ele desse qualquer presente em seu aniversário, guardava (de má vontade) o tributo para sua ´avó´, provavelmente peixe. Um das razões, talvez, para a expedição. Teria sido como Sméagol dar peixe, mas de fato pego por Déagol!

[6] Nós estamos aqui só tratando com ´chefe´ titular não com possessão de propriedade, e sua administração. Estas eram questões distintas; embora no caso da sobrevivência das ´grandes casas´, como Grande Smials ou Salas de Brandy, elas poderiam sobrepor. Em outros casos o comando, sendo um mero título e um assunto de cortesia, era naturalmente raro ser renunciado pelo herdeiro.

[7] Este título e ocupação descendem imediatamente, e não foi mantido por uma viúva. Mas Ferumbras, embora ele se tornasse Thain Ferumbras III em 1380, ainda sim ocupou nada mais que um pequeno apartamento de um filho solteiro no Grande Smials, até as 1402.

[8] os descendentes de um bisavô comum do mesmo nome.