The Atlas of Middle-earth, Uma Análise Crí­tica

Existem três grupos distintos de livros sobre a obra de J.R.R. Tolkien: as biografias, os guias de estudo da obra e as análises da obra. Em geral para os fãs os mais interessantes são os da categoria do meio, os guias de estudo. Biografias são interessantes, mas quem leu uma já leu quase tudo, encontrando apenas detalhes diferentes ou um pensamento colocado de forma diferenciada ou com outro enfoque. Análises da obra são quase sempre obras acadêmicas e áridas, que apenas os "hard fans" podem apreciar.
 
 
Agora os guias de estudo são úteis para todos. Afinal de contas, quem é que guarda todos aqueles nomes, descrições, distências, informações de relevo na cabeça? No começo é até possível, mas depois que você começa a entrar no âmbito Silmarillion da obra não tem mais jeito. Um guia torna-se quase indispensável e dentre eles um dos mais populares é o "The Atlas of Middle-earth" de Karen Wynn Fonstad, que estará sendo lançado no Brasil, traduzido, em breve. Como o breve da Martins Fontes tem uma conotação absurdamente variável, farei uma análise da obra americana e quando chegar a versão nacional, uma segunda análise enfocando detalhes da mesma.

A autora, Karen W. Fonstad é uma cartógrafa aficcionada por obras de fantasia. Além do TAMe (vamos usar assim, pra não ter que escrever a cada vez "The Atlas of Midle-earth"?) ela tem algumas outras obras sobre fantasia, como atlas de Dragonlance e Forgotten Realms. No TAMe ela se propõe a destrinchar completamente a geografia de Arda, desde sua criação até chegar às Eras do Sol e à Guerra do Anel.

O livro se divide em set partes: Primeira Era (mas que contém mapas de antes da Primeira Era), Segunda Era, Terceira Era, Mapas Regionais (como Condado, Eriador, Mordor), O Hobbit, O Senhor dos Anéis e Mapas Temáticos (clima, vegetação, demografias). Para os mais "leigos" as seções 5 e 6 (Hobbit e SdA) são as mais interessantes, pois contém tudo que você precisaria saber, desde distâncias "exatas" até dias gastos nas mesmas até um esquemático da Torre Branca de Minas Tirith. É impressionante.

Acompanhando as dezenas de mapas, gráficos, esquemáticos, representações de batalhas temos vários comentários da autora e citações dos livros ajudando a posicionar o leitor no tempo e espaço da obra, sem que o mapa fique completamente "jogado". Alguns mapas são de excepcional utilidade, como o do Abismo de Helm e algumas análises são bem interessantes, como a dos números da Batalha dos Campos de Pelennor mas no geral o livro é todo bastante útil como referência e localização. Todos os mapas são muito bem desenhados e utilizam apenas duas cores (na realidade não precisa mais, pode-se ver alguns exemplos na Valinor, como os Campos de Pelennor e as Montanhas Nebulosas ) e exigem algum conhecimento básico de geografia para saber lê-los corretamente. Portanto se você fugiu da escola ou dormiu nas aulas de geografia, pode ter algumas dificuldades, principalmente nas escalas.

Os livros de apoio à obra de Tolkien costumam ser divididos em confiáveis, não-confiáveis e meio-termo ou nebulosos. O TAMe cai no terceiro enquadramento, explico porque. Ele possui muitas informações completamente verossímeis e válidas, mas também trabalha com o duvidoso, pois para englobar tão largo espectro temporal ela utiliza todas as fontes disponíveis, inclusive o Contos Inacabados e os HoME. Logicamente que nos mapas mais duvidosos ela deixa explícito isso e os desenha intencionalmente sem tantos detalhes, mas mesmo assim é necessário cautela. Existem alguns erros, os quais não têm sido corrigidos nas reedições do livro, como erros na escala de Eriador que se espalham em outras medidas. E (pelo menos na minha edição, embora pelo que tenha lido não mudou na nova) ela só utilizou como fonte até o HoME 8, deixando de fora muita informação pertinente sobre as Primeiras Eras, tornando os mapas pouco confiáveis.

É um livro que eu considero indispensável, mas exige ressalvas e criticismo. Não se pode simplesmente aceitar tudo nele como verdade pois além da "verdade" ser discutível principalmente nos livros editados por Christopher Tolkien ela comete seus próprios equívocos e incorreções. Se você o encontrar em inglês ou em português quando for lançado, pode comprar sem medo, como guia visual é insuperável, e vai continuar sendo por muito tempo. Mas como tudo na vida, não pode ser aceito sem uma visão crítica.

Aguardo ansiosamente a versão traduzida pelo Kyrmse, o que sempre se traduz em qualidade na tradução de nomes e locais e estou tremendamente curioso para saber como os mapas estão visualmente traduzidos e como as referências a livros em inglês serão dadas. O livro pode ser comprado por qualquer livraria virtual na Internet e nas grande livrarias "reais" em geral, como Livraria Cultura e FNAC .